O Hábito Faz o Monge?

Existe um grande número de artigos internacionais avaliando a influência da vestimenta e da aparência física na relação médico-paciente. De modo geral os resultados indicam que os pacientes preferem profissionais de estilos mais conservadores, em especial o uso de avental branco. Uma parcela expressiva de pacientes estrangeiros associa o avental branco à figura de médicos com atitude profissional, mais bem preparados, mais preocupados com os pacientes e mais higiênicos.
O início do uso de avental branco pelos médicos remonta ao começo do século XX em países do hemisfério norte. A tradição acabou por associar a ele o uso de gravata por médicos em países de língua inglesa. As razões que levam os médicos a usar avental são variadas, mas as mais comumente referidas são melhor identificação por pacientes e colegas, proteção das próprias roupas contra líquidos e secreções e possibilidade de carregar utensílios nos bolsos. No Brasil muitos médicos preferem o uso de vestimenta totalmente branca para desenvolvimento de sua atividade clínica. As razões para essa opção não são claras, assim como esse hábito não parece existir em nenhum outro país.
No nosso meio apenas dois estudos publicados investigaram essas questões até agora. Em um deles pacientes, estudantes de medicina e médicos responderam perguntas relativas a um painel de fotos de médico e médica vestidos em diferentes estilos: roupa branca, avental branco, avental com gravata, formal, informal, casual e roupa de centro cirúrgico. Algumas questões formuladas foram: qual destes é o mais higiênico ? Qual o mais competente ? Os voluntários ainda registraram seu grau de desconforto frente a uma lista de 20 itens de aparência para profissionais de ambos os sexos.
A maioria das respostas favoráveis dos voluntários envolveu o uso de roupa inteiramente branca ou avental branco. Em muitas questões os percentuais de preferência referidos para esses dois estilos foram muito próximos. Os pacientes escolheram mais frequentemente a roupa branca em resposta às questões. Médicos e estudantes preferiram profissionais em traje de centro cirúrgico para consultas de urgência, e o estilo informal para discutir problemas psicológicos com profissional masculino. No tocante aos profissionais masculinos, os três grupos referiram elevado grau de incômodo para uso de shorts e bermudas, muitos anéis, piercing facial, sandálias, cabelos de cor extravagante, cabelos compridos e brincos. Para o sexo feminino, níveis elevados de desconforto foram assinalados para shorts, blusas mostrando a barriga, piercing facial, bermudas, muitos anéis, cabelos de cor extravagante e maquiagem carregada. Tatuagens também estiveram associadas a um grau expressivo de desconforto por parte dos pacientes.
Os resultados desses estudos indicam que, à semelhança do já descrito no exterior, a adoção de uniformes profissionais pelos médicos gera maior confiança e identificação, também por parte dos pacientes brasileiros.
Entre os estilos selecionados pelos pacientes, a vestimenta inteiramente branca exibiu a maior frequência, tanto para o profissional masculino quanto para o feminino. Isso foi particularmente verdade para a aparência de higiene e como opção para consultas de rotina. Esse achado sugere que essa vestimenta é boa opção a ser adotada pelos médicos brasileiros, pois além de agradar número substancial de pacientes, traz maior conforto num país onde temperaturas elevadas ocorrem boa parte do ano.
As visões de médicos e estudantes foram diferentes daquelas expressas pelos pacientes. Grande percentual de médicos e estudantes optou pelo estilo avental com gravata para profissionais de sexo masculino diante de diferentes cenários. Um elemento que pode ter contribuído para tais resultados seria a influência de estereótipos transmitidos por meios de comunicação, em particular séries televisivas produzidas na América do Norte. Nesse contexto, muitos médicos desejariam adotar, ainda que inconscientemente, estilos visuais de profissionais muito competentes e de sucesso, ainda que estes fossem apenas personagens de ficção originários de países estrangeiros.
Aspecto relevante adicional é o risco da transmissão de infecções. Estudos mostram que o avental branco usado continuamente acaba por se tornar contaminado por diferentes tipos de micro-organismos, especialmente nos bolsos e nos punhos das mangas longas. O mesmo é verdade para gravatas, exceto as do tipo borboleta. Contudo, a importância real dessa contaminação na transmissão de infecções no ambiente hospitalar ou fora dele ainda é incerta. Nesse aspecto a roupa branca parece também trazer vantagem, pois pode ser usada sem mangas longas e, ao ser trocada e lavada todos os dias, pode minimizar o risco da transmissão de infecções.
Vale salientar que quando foram realizados estudos prospectivos no exterior com médicos utilizando roupas diferentes como, por exemplo, roupa de centro cirúrgico ou avental branco em unidade de urgência, o tipo de vestuário não influenciou o grau de satisfação manifestado pelos pacientes após a consulta. Esses dados sugerem que, embora a aparência possa ser importante imediatamente antes e nos momentos iniciais do contato, a atitude e o comportamento demonstrados pelo profissional durante a consulta são os fatores realmente determinantes para a avaliação final do cuidado recebido.

Referências Selecionadas

– Brandt LJ. On the value of an old dress code in the new millennium. Arch Intern Med 2003; 163:1277-81.
– Lill MM & Wilkinson TJ. Judging a book by its cover: descriptive survey of patients’ preferences for doctors’ appearance and mode of address. BMJ 2005; 331:1524–7.
-Hortense AB & Baddini-Martinez J. A little more on the appearance of doctors. Rev Assoc Med Bras 2014; 60:2.
– Yonekura CL, et al Impressões de pacientes, médicos e estudantes de Medicina quanto a aparência dos médicos. Rev Assoc Med Bras 2013; 59:452–59

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