A Hemoptise de Belinha.

 

Hemoptise é a expectoração de sangue proveniente das vias aéreas baixas. Uma distinção deve ser feita com escarro hemoptoico, onde o sangue sai na forma de estrias em meio a catarro mais claro. As causas mais comuns de hemoptises atualmente são bronquiectasias, tumores de crescimento endobrônquico, tuberculose, aspergilomas e mesmo embolia pulmonar. Estenose mitral grave também pode provocar pequenas hemoptises, mas esse é achado praticamente inexistente nos dias de hoje.
Historicamente hemoptises sempre estiveram associadas com tuberculose pulmonar, doença sem tratamento efetivo até meados dos anos 1950. E é nesse contexto que as descrições clássicas sempre foram feitas: pacientes se afogando em grandes volumes de sangue vermelho vivo rutilante, borbulhante. Felizmente tais quadros são cada vez mais raros.
O texto atado contém a descrição de uma hemoptise clássica retirada do livro Floradas da Serra de autoria de Dinah Silveira de Queiróz (1911-1982). A mãe da autora morreu de tuberculose quando ela era criança, razão do seu interesse pela doença. Dinah passou meses em Campos do Jordão pesquisando em sanatórios e conversando com tisiologistas para escrever Floradas da Serra, que foi publicado em 1939. O livro é altamente recomendado para quem se interessa pela história da Medicina e particularmente da tuberculose.
O texto atado foi editado devido ao espaço limitado e para salientar apenas aspectos de interesse dos jovens que nunca viveram uma hemoptise de fato. Para situar o leitor na cena: Belinha tem tuberculose pulmonar e após longo período vivendo em Campos do Jordão é dada como curada. Antes de partir é feita uma grande festa na pensão em que mora para comemorar o seu aniversário de 15 anos. Colegas da pensão e amigos (a maioria com a doença) estão alegremente dançando quando…

 

20111108-A dig0114

Dinah Silveira de Queiroz

Fazendo roda, moças e rapazes risonhos marcam a cadência e alguém dança. Dr. Celso rompe o círculo. Uma nuvem cor-de-rosa passa e repassa num rodopio constante… Brilhando à luz intensa, coberto um segundo pelas mangas esvoaçantes e logo desnudado, o semblante de Belinha apareceia todo rosado, numa expressão mística ideal.

Segundos mais, Dr. Celso avança para a menina. As palmas emudecem. Belinha estaca. De repente, faz-se branca, muito branca, de rosada que estava. Parece que vai falar, cambaleia… Vai falar?

Um jato rubro lhe desce da boca inundando o vestido. Dr. Celso toma-a em seus braços. A hemorragia tem algo de brutal, incrível. O sangue corre até o chão…

Dr. Celso procura levar com cuidado a menina desfalecida. Alguém se aproxima, levanta do chão a gaze empapada de sangue, segurando as pernas de Belinha. Um grito histérico reboou pela sala. Zizi desmaia. O círculo humano se quebra. Dr. Celso leva para o quarto, ajudado por Lucila, o corpo ensanguentado da menina.

Belinha estava com a cabeça alteada sobre os travesseiros, com os braços e pernas apoiados em travesseiros menores. Dr. Celso, com os cabelos em desalinho, as mangas sujas de sangue, arregaçadas, tomava das mãos de Dona Sofia uma bolsa de gelo, trocando por outra à altura do coração. Uma toalha, já maculada por aquele vermelho vivo e brilhante, a cor heróica, bela, gloriosa do sangue fresco, cobria a boca de Belinha, e nos olhos da menina, abertos e redondos, havia um grande espanto.”Então era isso?” pareciam perguntar. Os seus olhos eram de uma criança que desperta surpresa, num lugar desconhecido.

Lucília chegou com uma seringa de injeção já cheia e a apresentou ao Dr. Celso, que nervosamente picou a doente.”Vamos ver se cede…Meu Deus, meu Deus, já era tempo…” disse contraindo a fisionomia, com um aspecto de velhice e cansaço…Então a toalha escorregou pelo colo da menina,e o caudal vermelho rompeu de novo, inundando tudo. As suas mãozinhas, apoiadas, subiram, subiram para alcançar as de Dr. Celso, de pé junto dela. Subiram crispadas como as de um náufrago que procura agarrar um último auxílio.

Tudo nela gritou pela vida, delirantemente até o fim. Seus olhos falavam alucinados da luta que queriam vencer. O seu corpo encolheu-se todo como um animalzinho ágil que vai saltar, que vai transpor algum obstáculo. Depois, soltas, relaxadas, as suas mãozinhas caíram e se imobilizaram.

Alguma coisa, com uma estranha nitidez, espalhou-se por ela toda, por sobre aquele rosto, cuja boca sorria um sorriso sangrento. Dr. Celso caiu de joelhos junto da cama, deitou a cabeça sobre o coração de Belinha, e voltou depois um rosto desvairado, atônito, para Lucília e Elza:

– Está morta!  

 – Floradas na Serra. Dinah Silveira de Quieroz, José Olímpio, RJ, 15 ed, 1976, pg 58-61.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>