Empatia e Resultados Cirúrgicos.

O contato diário com pacientes é elemento central da atividade médica. Vínculos de comunicação efetiva precisam ser estabelecidos entre o médico e seus pacientes, familiares, amigos e cuidadores. Nesse contexto, cada vez mais vem sendo dada importância à empatia como instrumento essencial da relação profissional da saúde-paciente.

Empatia, dentro do cenário de atendimento a saúde, pode ser definida como a habilidade de entender a situação, perspectivas e sentimentos do paciente e de comunicar aquele entendimento a ele. A ênfase no componente cognitivo (entender a situação), permite o mergulho intelectual nas perspectivas do paciente, não envolvendo o ônus da percepção do sofrimento alheio a partir de uma vivência emocional completa. Desse modo, empatia diz respeito ao entendimento emocional do doente, mantendo-se distância suficiente para que as habilidades médicas possam ser aplicadas racionalmente na solução do problema clínico.

O emprego de empatia tem sido associado a diversos benefícios aos pacientes, tais como melhora da qualidade da comunicação de sintomas e preocupações; aumento da acurácia diagnóstica; aumento do fornecimento de informações sobre a moléstia; aumento da participação nas decisões e educação do paciente sobre a doença; aumento da colaboração e satisfação dos pacientes; maior aderência ao tratamento; redução da depressão e melhora da qualidade de vida.

Uma possibilidade bem razoável, é a de que os efeitos positivos relacionados com o emprego de empatia sejam perceptíveis em cenários clínicos que envolvam maior interação humana e não demandem grau substancial de sofisticação tecnológica ou perícia técnica. Contudo, estudo publicado por Steinhausen et al (2014), sugere fortemente que expressar empatia pelos pacientes é elemento importante, mesmo em  situações  estressantes e de urgência como as cirurgias de trauma.

Nesse estudo, 217 pacientes que estiveram internados em uma ala de cirurgia do trauma em hospital da Alemanha, responderam uma série de escalas durante a internação, seis semanas e 12 meses após a alta hospitalar. A maioria dos casos envolvia lesões ortopédicas em extremidades. Os dados obtidos foram: (i) na internação: dados sociodemográficos, escala de ansiedade e depressão e escala de estresse pós-traumático; (ii): seis semanas após a alta: escala CARE de empatia; questionário SF-36 de qualidade de vida; escala SEMTO para avaliação do desfecho médico e escala de cuidado psicológico.

A escala CARE (Consultation and Relational Empathy) é medida simples de fácil emprego na prática médica. Ela parte do princípio que o grau de percepção da empatia por parte do paciente influencia a efetividade da intervenção médica. Ou seja, os sentimentos e crenças conscientes do médico não trarão benefícios aos pacientes, a menos que sejam demonstrados de maneira inequívoca. Desse modo, essa escala reflete as impressões do paciente sobre o grau de empatia demonstrado pelos médicos durante o seu cuidado. A escala CARE já foi traduzida e adequadamente validada para uso no Brasil pelo nosso grupo.

A escala SEMTO (Subjective Evaluation of Medical Treatment Outcomes) foi desenvolvida para avaliar o grau de satisfação do paciente com o tratamento instituído. Ela aborda aspectos do tipo “eu estou muito satisfeito com meu tratamento médico”; “eu penso que o tratamento instituído foi efetivo”; “o tratamento me fez sentir melhor” e “o tratamento tem melhorado minha qualidade de vida”.

Os autores constataram que o grau de empatia apresentado pelos cirurgiões durante a internação, associou-se positivamente com o grau de satisfação reportado pelos pacientes frente aos resultados dos tratamentos cirúrgicos, após seis semanas, e mesmo depois de um ano da alta hospitalar. Ainda que a intensidade dessa associação tenha sido menor quando avaliada após 12 meses, do que em seis semanas, ambas as análises mostraram valores estatisticamente significantes. Cirurgiões avaliados com escores da escala CARE ≥41 exibiram chances maiores de terem os resultados do seu tratamento melhor avaliados, do que aqueles com escores inferiores a esse valor de corte.

Os autores concluem que a prática médica em padrões elevados de qualidade institucional e habilidade técnica não é suficiente para assegurar altos graus de satisfação do paciente com o tratamento instituído. As relações interpessoais, e em especial a expressão de empatia, devem influenciar substancialmente tais resultados. Mesmo em situações de emergência, que envolvem muita correria e tecnologia, o fator humano continua sendo elemento essencial na relação médico-paciente.

– Scarpellini GR, et al. Escala CARE de empatia, tadução para o Português falado no Brasil e resultados inicias de validação. Medicina (Ribeirão Preto), 2014; 47: 51-8.

– Steinhausen S, et al. Short- and long-term subjective medical treatment outcome of trauma surgery patients: the importance of physician empathy. Patient Prefer Adherence, 2014; 8: 1239-53.

 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>