O Eterno Mito de Esculápio.

Esculápio (em latim) ou Asclépio (em grego) é a divindade da mitologia greco-romana ligada a prática da medicina. Rigorosamente falando, Esculápio não era um deus, mas sim um semi-deus, pois era fruto do relacionamento de um deus do Olimpo com uma mortal terrena. Contudo, o personagem tornou-se extremamente popular, tendo sido construídos inúmeros templos em sua honra na Antiguidade. Por essa razão, Esculápio frequentemente é classificado como deus da medicina. Por uma ótica ligeiramente diferente, Esculápio pode também ser considerado como o primeiro médico.

Existem diversos textos antigos com histórias ligeiramente diferentes sobre o mito. Praticamente todas as citações relativas aos personagens mitológicos envolvidos foram compiladas por Emma e Ludwig Edelstein e publicadas em uma obra de dois volumes pela Johns Hopkins University Press no ano de 1945.

Entre várias versões do mito uma, baseada em parte no que o Prof. Walter Edgard Maffei contava, é a que se segue:

Apolo era deus do Olimpo filho de Zeus (júpiter) e de Latona (Leto), e irmão de Diana (Artemis). O número de atributos de Apolo é tão grande e complexo, que frequentemente é difícil relacioná-los entre si. Apolo era um deus da luz e do sol, embora não sendo o sol propriamente dito, que era representado por Hélios. Ao deus Apolo era atribuído o amadurecimento dos frutos e a defesa das colheitas contra camundongos e pragas, assim como a proteção dos rebanhos. Apolo era hábil arqueiro e um deus da cura, que afastava as doenças com suas flechas. Apesar disso, o fenômeno da morte súbita também era atribuído ao disparo de uma de suas setas. Apolo era ainda, entre outros, o deus das profecias e da música.

Apolo desfrutava de grande prestígio, a tal ponto que, quando adentrava a assembleia dos deuses no Olimpo, todos se levantavam em sinal de respeito. Apolo era um personagem forte e belo, que se envolveu em muitas aventuras amorosas, tanto com mulheres como com jovens do mesmo sexo.

Uma das amantes de Apolo foi Coronis, filha de Flégias, rei dos Lápitas. Coronis ficou grávida de Apolo e este enviou então um corvo, para lhe servir de guardião e vigia. Coronis, contudo, preferiu o amor de Isquis, um Lápita, e, mesmo em gravidez avançada de Apolo, a ele se entregou. A razão pela qual Coronis preferiu Isquis a Apolo não é clara. Segundo alguns, ela estaria noiva de Isquis, que era seu primo, por vontade do seu pai. Para outros, ela temia o desprezo por ser amante de um deus e teria optado pelo casamento com um mortal.

O corvo, que até então era uma ave de penas brancas, voou até Apolo e lhe contou sobre a traição de Coronis. Apolo ficou furioso e transformou as penas brancas do corvo em negras, por ela ter sido uma ave de mau agouro. Apolo então decidiu se vingar de Coronis, enviando sua irmã para matá-la, e também a Isquis, já que Diana era exímia arqueira.

Quando a fúria de Apolo dissipou, o corpo de Coronis já estava em chamas em uma pira, e o deus, penalizado com o destino do fruto do seu amor, apressou-se em remover o filho do ventre da ex-amante. Essa criança era Esculápio, que imediatamente foi entregue ao centauro Quíron para ser criado. É interessante ressaltar que Quiron era filho de Cronos (Saturno) e da ninfa Filira, pelos quais foi abandonado, e havia sido achado e criado por Apolo, o qual havia lhe transmitido todos seus conhecimentos. Quíron é considerado o último dos centauros, famoso por sua inteligência e bondade, sendo possuidor de grandes habilidades médicas.

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Quiron com Esculápio quando criança.

Esculápio recebeu de Quíron o conhecimento médico e, ao longo da sua vida, aprimorou por si próprio a prática da arte da medicina. Esculápio tornou-se um médico tão bom, que podia até mesmo ressuscitar os mortos.

Esculápio foi casado com Epione, divindade relacionada com a sedação da dor, com a qual teve cinco filhas: Higéia, a divindade da higiene, Panacéia, a divindade da farmácia, Aglaéia, a divindade da boa saúde, Aceso, a divindade da cicatrização e Iaso, a divindade da convalescência e cura. Esculápio e Epione tiveram ainda três filhos: Macaão e Podalírio, ambos exímios cirurgiões, e Telésforo, divindade igualmente associada com a cura.

Esculápio era um médico tão competente, que as pessoas deixaram de morrer ou eram até mesmo resuscitadas. Como consequência, Plutão (Hades), o deus dos infernos, foi queixar-se para seu irmão Zeus, que seus domínios estavam ficando despovoados. Esculápio estava sonegando almas ao inferno.

Aparentemente acometido por inveja das habilidades curativas do semi-deus, ou tendo sido convencido por Plutão que os humanos deviam seguir sua sina de mortais, Zeus fulminou Esculápio com um raio.

Ao saber da morte do filho, Apolo ficou consternado e, como não pudesse ir contra seu pai, matou todos os Cíclopes, seres que forjavam os raios de Zeus.

Na Antiguidade o culto a Esculápio foi disseminado por grandes regiões da Europa, norte da África e Oriente Próximo. Foram construídos templos e santuários para onde se dirigiam doentes, e que acabavam funcionando como hospitais. Foi a partir da compilação de informações armazenadas em locais como esses, que Hipócrates deu início a prática de uma medicina mais racional e científica. Porém, essa é uma história para outro dia.

O mito de Esculápio sempre abrangerá a essência da profissão médica.

A missão fundamental do médico é “sonegar almas ao inferno”!

Qualquer outro tipo de proposição será sempre simples conversa fiada…

 

– Bulfinch T. O Livro da Mitologia. 4ed , Marin Claret, São Paulo, 2011, 467p.

– Edelstein EJ, Edelstein L. Asclepius. Collection and Interpretation of the Testimonies. The Johns Hopkins University Press, Baltimore, 1998, vols I, II, 470p, 277p.

– Guirand F. Greek Mythology. Paul Hamlyn, London, 1965, 153p.

2 Comentários

  1. Antonio Luiz Rodrigues Júnior

    Asclépio era Deus da Cura, na Mitologia Grega. Após a invasão da Grécia pelos romanos, os símbolos gregos foram incorporados à Mitologia Romana, criando a Mitologia Greco-Romana. Aí Asclépio se tornou Esculápio, com adaptações
    .

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    1. arsmedica (Autor do post)

      De fato, os romanos “roubaram” boa parte das suas divindades da mitologia grega.

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