Arte e Doença na Vida de Frida Kahlo.

Frida Kahlo (1907-1954) está listada entre os maiores artistas do México. Ela é facilmente reconhecida pelo grande número de autoretratos, sempre se ilustrando com volumosas sobrancelhas negras confluentes. Além de expoente da pintura surrealista, Frida Kahlo também ficou famosa por posições políticas de esquerda, liberais e feministas para a época.

Frida sempre exibiu saúde frágil e grande número de moléstias acabou por influenciar de maneira decisiva a sua obra.

A pintora contraiu poliomielite aos seis anos de idade e permaneceu então acamada por nove meses. Como sequela da doença desenvolveu atrofia permanente da perna e pé direitos, o que dificultava sua deambulação. Devido a isso, começou a usar saias longas, frequentemente caracterizadas em seus autoretratos.

Em setembro de 1925, aos 18 anos, o ônibus em que viajava bateu em um bonde e ela ficou gravemente ferida, com diversas fraturas na pélvis e na coluna vertebral. Após várias cirurgias e semanas de internação hospitalar, foi para casa continuar sua recuperação. Nesse momento, estimulada pelos pais, começou a pintar, com a ajuda de um cavalete adaptado sobre a cama. A partir daí a dor crônica também se tornou companheira inseparável da artista.

As dores crônicas e dificuldades para locomoção, bem como a depressão daí advinda, influenciaram decididamente a obra de Frida Kahlo. Certa vez ela justificou o grande número de autoretratos pelo fato de ficar muito tempo sózinha, e ser ela própria o objeto que melhor conhecia. Apesar da doença e das limitações, Frida desfrutou de uma vida bastante ativa, tendo vivido um relacionamento amoroso intenso e turbulento com o muralista mexicano Diego Rivera, com quem se casou.

Duas obras de Frida merecem ser especialmente conhecidas pelos médicos, pois conseguem transmitir, de forma pungente, a verdadeira natureza do sofrimento humano.

Henry Ford Hospital (1932): Essa pintura foi feita logo após um segundo aborto espontâneo, ocorrido durante internação no Hospital Henry Ford em Detroit. Foi nessa ocasião que a artista tomou consciência de que, apesar do seu desejo, não poderia ter filhos, devido a deformidades da bacia.

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No centro da figura Frida se autoretrata deitada no leito flutuante, nua, com uma lágrima gigante caindo do olho esquerdo, envolta em sangue na região genital e abdomen inferior. Em torno dela existem seis objetos suspensos ligados pelo que parecem ser cordões umbilicais. No centro está o feto, perfeitamente formado, do sexo masculino; acima deste, um caramujo representa a lentidão do processo do aborto; abaixo do feto, um torso feminino róseo representa a feminilidade e o interior da mulher; em frente do leito, mais lateralmente, há sua pelve fraturada; no centro uma orquídea representa o presente dado pelo marido Diego (fertilização); mais abaixo uma máquina metálica representa o componente mecânico do processo, a curetagem. Ao observarmos essa pintura com atenção, conseguimos vivenciar o sofrimento e o sentimento de perda da autora em toda a sua plenitude.

A coluna quebrada (1944): Esta pintura foi confeccionada em um período no qual a artista estava particularmente acometida de dor e necessitava usar colete ortopédico para sua movimentação.

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Ao fundo o céu está cinzento, refletindo seu estado de espírito depressivo. Na face escorrem lágrimas. O tronco aberto ao centro deixa vislumbrar no interior uma coluna jônica quebrada em vários níveis. Do mesmo modo, o terreno ao fundo contém múltiplas fraturas e irregularidades. Faixas de colete ortopédico envolvem o tronco da artista em vários níveis. Incontáveis pregos se distribuem ao longo do corpo representando a dor que a paciente sente. Um prego maior, na altura do coração, simboliza a dor emocional causada pela relação difícil com o marido. Essa pintura consegue nos transmitir de maneira forte e clara, o estado físico e emocional da artista naquela época.

Frida Kahlo acabou por desenvolver uma gangrena no pé direito que, após longo tratamento, culminou em amputação de parte da perna. Pouco tempo depois da cirurgia veio a falecer de embolia pulmonar em sua casa. Entretanto, para alguns, na verdade, cansada de tanto sofrimento, teria cometido suicídio…

Referências 

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