Sobre Serpentes, Bastões e Médicos.

Nós podemos definir símbolo como uma figura ou imagem que representa, pela sua visualização, algo que é puramente abstrato. Símbolos sempre foram importantes na história humana e, em tempos de comunicações eletrônicas curtas e rápidas, têm adquirido maior interesse e ampla utilização.

O símbolo classicamente utilizado para representar a medicina é o bordão ou bastão de Esculápio, que consiste de um cajado envolto por uma serpente. As origens desse símbolo remontam ao mito de Esculápio, já comentado aqui em outra postagem.

Esculápio sempre é representado em pinturas e estátuas da antiguidade segurando um cajado com uma única cobra nele enrolada. Há pelo menos duas versões para a presença da serpente no bordão. Para alguns, durante uma visita a pacientes, a cobra teria se enrolado no seu cajado, de tal maneira que foi impossível retirá-la dali a partir de então. Existe ainda a possibilidade da serpente no bordão fazer alusão à passagem na qual Esculápio recebeu conhecimentos médicos sussurrados por esse animal em seu ouvido enquanto dormia.

Vale salientar que serpentes estão associadas com a cura em inúmeras culturas antigas, muito provavelmente devido a capacidade de, ao trocarem a pele, rejuvenescerem. É interessante notar que mesmo na Bíblia existe uma passagem onde afirma-se (Números, 21:8 e 9): “e o Senhor disse a Moisés: Faze para ti uma serpente ardente e mete-a sobre um poste. Todo o que for mordido, olhando para ela, será salvo. Moisés fez, pois, uma serpente de bronze, e fixou-a sobre um poste. Se alguém era mordido por uma serpente e olhava para a serpente de bronze, conservava a vida ”.

Há de se supor que serpentes representadas em outros signos das ciências da saúde como, por exemplo, a farmácia e a higiene, derivem daquela presente no símbolo da medicina, pois as divindades ligadas a tais áreas, Panacéia e Higéia, eram filhas de Esculápio.

O que traz muita confusão com o bastão de Esculápio é o caduceu de Mercúrio (Hermes). Este é um bastão alado com duas serpentes retorcidas o qual, às vezes, é utilizado impropriamente como símbolo médico.

Mercúrio era filho de Júpiter e Maia. Logo após o nascimento mostrou inteligência extraordinária, tendo fugido do berço e roubado parte dos rebanhos guardados por Apolo. Após esconder o gado em uma caverna voltou para o berço como se nada tivesse acontecido. Apolo descobriu o roubo e levou Mercúrio diante de Júpiter, que obrigou a criança a devolver os animais. Contudo, Apolo ficou encantado com o som da lira que Mercúrio havia inventado, a partir do casco de uma tartaruga e tripas de boi, e acabou dando ao moleque, em troca do instrumento, não apenas o gado como também o caduceu. Originalmente o caduceu era apenas um bastão de ouro alado, porém, em certa ocasião, Mercúrio lançou-o entre duas serpentes que lutavam e estas, em uma atitude amistosa, acabaram por entrelaça-lo.

Apresentação1

                    Mercúrio exibia grande inteligência e esperteza. Por isso foi escolhido pelo pai para ser mensageiro, não apenas dele mesmo, como também de Plutão o deus dos infernos. Uma das tarefas de Mercúrio era conduzir os mortos ao reino de Plutão. Por isso, na Antiguidade, homens que procuravam mortos e feridos em campos de batalha carregavam um caduceu, a semelhança do uso da bandeira da cruz vermelha nos dias atuais. Como consequência, o caduceu acabou tornando-se símbolo de alguns serviços de saúde de forças militares como, por exemplo, o exército dos Estados Unidos.  Como Mercúrio também é o deus dos negociantes, o caduceu é igualmente o símbolo do comércio.

Apesar do grande viés comercial que a profissão médica sofre nos últimos anos, ainda não é tempo de se trocar seu símbolo clássico, o bastão de Esculápio, pelo signo do comércio, o caduceu…

Referências

Bíblia Sagrada, 141a ed, Editora Ave Maria,São Paulo, 2001, pg. 198.

Metzer WS. The caduceus and the Aesculapian staff: ancient eastern origins, evolution, and western parallels. South Med J. 1989;82: 743-8.

Prates PR. Do bastão de Esculápio ao caduceu de Mercúrio. Arq Bras Cardiol. 2002;79: 434-6.

Thorwald J. O segredo dos médicos antigos. Melhoramentos, São Paulo, 1990, 319 p.

 

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