Cuidado Com o Que Você Fala!

Rodriguez, Morrow e Selfi abordam, no número eletrônico do JAMA de 12 de março de 2015, as implicações éticas de pacientes e familiares que gravam secretamente suas conversas com os médicos. Os autores discutem ainda alguns aspectos legais do fenômeno, diante da ótica das leis norte-americanas.

Os autores comentam que, frente a ampla disponibilidade de smartphones, ficou muito fácil para qualquer pessoa gravar conversas sem serem percebidas, ou pedirem autorização para tal. Ao que parece, fatos dessa natureza já foram observados no exterior e, muito possivelmente, mesmo no Brasil.

O que levaria pacientes e familiares a tal comportamento?

Vamos inicialmente adotar uma perspectiva positiva desse tipo de atitude:

Gravar as conversas garantiria compreensão integral do conteúdo transmitido. Chegando em casa, seria possível para o paciente ouvir com mais calma as informações fornecidas, poder-se-ia procurar em dicionários definições mais precisas de termos técnicos, bem como garantir o compartilhamento da conversa com familiares que não puderam comparecer a consulta. Pacientes com dificuldades de compreensão ou memória ruim poderiam se assegurar das recomendações terapêuticas que tenham sido feitas, tantas vezes quanto fossem necessárias. Além disso, em situações envolvendo medidas críticas como, por exemplo, em pacientes internados em CTI, a gravação do passo a passo que culminou com a opção por uma determinada decisão, pode garantir a quem a tomou, e mesmo a familiares ausentes, a convicção de que foi seguido o melhor caminho. Nesse último cenário, um registro eletrônico do processo pode ser útil, inclusive para proteger médicos e instituições de questões legais futuras.

Vamos olhar agora o lado negativo desse comportamento:

Há de se supor que alguns pacientes procurem gravar consultas visando garantir seus direitos legais diante de possíveis erros médicos ou, ainda pior, garimpar incongruências, falhas ou contradições no discurso do facultativo, com a finalidade da instalação de processos jurídicos e a obtenção de ganhos monetários.

A possibilidade da gravação de consultas leva a grandes chances da perda de espontaneidade de comportamento das partes envolvidas, propiciando deterioração da relação médico-paciente. Nesse contexto, os médicos poderiam adotar comportamentos defensivos, pedindo exames subsidiários em excesso, o que encareceria ainda mais os custos com a saúde. Na verdade, a quebra de confiança entre as partes, ao meu ver, tem potencial de até influenciar os resultados finais de tratamentos. Basta refletir sobre a real efetividade de muitas intervenções placebo…

Qual seria o melhor comportamento de médicos e pacientes diante da possibilidade real de gravação das consultas?

Acredito que pacientes interessados em gravar consultas devem, obrigatoriamente, pedir permissão ao médico antes de faze-lo. Havendo concordância de ambas as partes quanto ao procedimento, questões futuras quanto às possíveis consequências do ato serão minimizadas.

Os médicos, quando consultados sobre a possibilidade da gravação da consulta, não deverão se opor à solicitação. Caso se oponham, poderá parecer que estão querendo esconder alguma coisa ou têm algo a temer.

Diante da possibilidade de estar sendo gravado sem conhecimento, o médico deverá sempre empregar suas palavras com atenção e sobriedade. Na verdade, a relação médico-paciente deve sempre ser norteada por honestidade e transparência, independentemente da possibilidade de gravação dos seus encontros. Se assim for feito, nunca existirão motivos para preocupações.

Para concluir, vale a pena reproduzir o último parágrafo do texto de Rodriguez et al:

“If physicians embrace this possibility, establish good relationships with their patients, provide compassionate and competent care, and communicate effectively and professionally, the motives of patients and families in recording visits will be irrelevant.”

Rodriguez M, Morrow J, Selfie A. Ethical implications of patients and familiessecretly recording conversations with physicians. JAMA. 2015 Mar 12. doi: 10.1001/jama.2015.2424. [Epub ahead of print].

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