O Terapeuta de Magritte: Representações do Médico e da Doença?

René Magritte (1898-1967) foi um dos expoentes do surrealismo. Nascido na Bélgica, a sua mistura de imagens precisamente pintadas em situações inusitadas, também é classificada como realismo mágico.

Magritte pintou ao longo de sua vida algumas variações de uma mesma tela denominada Le Thèrapeute, título que é traduzido em inglês para The Healer e em português para O Terapeuta.

Aparentemente uma versão preliminar foi pintada em 1936 e uma definitiva em 1937. Posteriormente uma nova tela com elementos diferentes foi criada em 1962.

Ao final da vida, Magritte envolveu-se em um projeto para transformar oito de suas telas em estátuas. Embora tenha participado da construção dos modelos em cera, ele veio a falecer antes da conclusão do projeto e, como consequência, nunca viu a estátua em bronze de O Terapeuta.

 

1937

1937

1962

1962

1967

1967

Alguns aspectos tentem a se repetir em diferentes obras de Magritte, de tal forma que, imagem parecida com a de O Terapeuta pode ser encontrada pelo menos em outro trabalho do pintor, Le Liberateur (O libertador). As versões mais famosas da tela O Terapeuta são as de 1937 e a de 1962.

Para interpretar essas obras é importante lembrar que os surrealistas sofreram fortes influências da psicanálise e que procuravam explorar como a mente poderia gerar novas formas de criatividade.

Na tela de 1937 o personagem está sentado com uma bengala e uma bolsa. Ele não tem face, está envolto por uma capa de tecido, e usa chapéu de palha. Abaixo da capa existe uma gaiola, sem portinhola, com dois passarinhos, um dentro, e outro do lado de fora em uma plataforma.

A tela tem sido interpretada como simbolizando a liberdade da mente (os pássaros), mesmo tendo de lutar contra formas de aprisionamento tais como a idade, ideologias, culturas e sociedade. A mente nasce livre, cheia de imaginação, mas ao longo do tempo vai tornando-se tolhida por limitações, tais como regras sociais, interesses e crenças pessoais, etc.

O Terapeuta parece um viajante sentado em momento de descanso. Como a figura não tem face, é impossível saber ou compreender quais são as suas qualidades pessoais. Ele usa uma bengala, que pode representar necessidade de apoio para uma caminhada difícil, ou ainda experiência e envelhecimento. A bolsa pode representar tudo aquilo que se adquire e se armazena ao longo da vida: nossas experiências e nosso saber.

A tela de 1962 é diferente da de 1937 em muitos elementos: agora o ambiente é uma noite estrelada, com uma lua minguante (ou crescente?) logo acima de um chapéu que não é de palha. A gaiola dá lugar a um espaço vazio cheio de nuvens, que pode se referir ao inconsciente. Talvez essas nuvens, em fundo azul claro, representem o céu iluminado do dia (interior) em oposição ao céu noturno (exterior). Além disso, quem sabe, a vida seja feita de eventos passageiros e fugazes como nuvens.

A nova pintura parece conter referências ao amadurecimento e final da vida (noite e lua minguante), momento de maior clarividência e sabedoria interior. Vale lembrar que Magritte viria a falecer cinco anos depois da confecção desse trabalho.

É certo que as duas versões de O Terapeuta contém muito da própria pessoa e do artista Magritte.

Uma questão relevante diz respeito do porquê do titulo O Terapeuta. Muito tem sido escrito sobre isso, principalmente no campo da psicologia. Uma interpretação pessoal, minha, é que o caminhar na vida nos serve de aprendizado e, assim, ela é a própria terapia. Em outras palavras, nós mesmos seríamos nossos terapeutas.

Giorgio Bordin e Laura D’Ambrosio, em seu livro Medicine in Art fazem menção a obra O Terapeuta por duas ocasiões, em contextos distintos ligados a medicina. No capitulo dedicado a Imagens do Médico eles comentam a versão de 1962 da obra, segundo a seguinte ótica:

“Revestido em mistério, esta imagem evoca a memória do valor ancestral do médico-feiticeiro, uma figura que – como o último baluarte na beira do profundo abismo da doença – provocava medo, inquietação e respeito.”  

“O que esse viajante-terapeuta incansável representa? É o céu luminoso que se abre diante de nós um convite para uma jornada em direção a uma realidade nova e misteriosa?”

Em relação à versão de 1937 e à estátua de 1967, os autores fazem interpretações relacionadas à doença:

“A doença, representada igual uma gaiola que aprisiona o enfermo sem modos de escapatória, é adicionada aqui a uma figura humana, criando um balanço complexo que faz sentido de uma realidade nova e misteriosa. Para o observador outra maneira de observar o mundo se torna possível”

“A associação inesperada de objetos conhecidos provoca sensação de desorientação. Mas, não é essa a sensação que nós experimentamos quando confrontamos os limites que são impostos pela doença?”

 

Uma das belezas da pintura, e do surrealismo em particular, é dar margem a interpretações múltiplas. O que está exatamente representado em O Terapeuta, varia de acordo com os olhos de cada observador. Ou como o próprio Magritte uma vez disse:  “Mistério não é uma das possibilidades da realidade. Mistério é o que é absolutamente necessário para que possa existir a realidade”

Referências

Bordin G & D’Ambrosio LP. Medicine in Art. The J Paul Getty Museum, Los Angeles, 2010, pg 263 and pg 356.

http://www.musee-magritte-museum.be/Portail/Site/Typo3.asp?lang=FR&id=languagedetect

 

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