Devo Ir a Congressos Médicos?

Faz quatro semanas que não adiciono nenhuma postagem neste blog. Se isso pode trazer satisfação para muitos dos leitores, para mim é motivo de frustração. Afinal, quando iniciei o projeto prometi para mim mesmo sentar todo sábado em frente ao notebook e digitar alguma coisa na tela (antigamente se diria “rabiscar alguma coisa no papel”).

Mas a falta de tempo tem sua razão: a obrigação de confeccionar cinco apresentações diferentes a serem apresentadas em dois eventos científicos seguidos. Sem contar o cansaço com tanta viagem.

E isso me fez refletir: “Vale a pena ir a congressos médicos?”

Afinal, nos dias de hoje, recursos de ensino online permitem manter-nos continuamente atualizados. Artigos científicos são enviados para nossas caixas de email antes mesmo de serem definitivamente formatados ou publicados em papel. Aulas de professores de universidades internacionais podem ser visualizadas gratuitamente em várias homepages. E como é tradicional, representantes da indústria farmacêutica periodicamente batem nas nossas portas com as novidades do mercado…

Para quem está na carreira acadêmica, palestras em congresso e resumos em anais acabam tendo valor nenhum. Em concursos de progressão na carreira os membros das bancas estão apenas interessados no número de trabalhos originais publicados e os respectivos fatores de impacto das revistas. Nessa situação, ir para um congresso pode significar menos tempo para concluir um artigo original que há muito precisa ser submetido.

Via de regra, despender cinco ou seis dias em um congresso médico significa, quando voltar, uma avalanche de emails a responder, um mundo de questões burocráticas atrasadas a serem resolvidas e, não raro, alguns pacientes insatisfeitos que irão, ou já trocaram de médico.

Sem falar dos custos! Se você não consegue algum tipo de patrocínio, tem de arcar com inscrições exorbitantes, custos de viagem, hotel, comida, etc.

É interessante notar que vários autores, recentemente e no passado, já viveram as mesmas dúvidas. Uma das melhores afirmações sobre congressos que encontrei foi a de Jules Older, publicada no British Medical Journal de 23 de maio de 1985, portanto, já há 30 anos:

“Conferences should be about learning and change (never mind job seeking, flirtation, tax breaks, drinking, and the rest of the conference’s hidden curriculum). Learning and change are most likely to take place in an atmosphere of excitement and electricity.”

De fato, congressos e conferências foram feitos para aprendizado e atualização.

Em tese, palestrantes com grande conhecimento nas suas áreas, após revisões da literatura extensas e elaboradas, fazem apresentações atualizadas, equilibradas e isentas, sempre temperadas com um pouco de experiência pessoal. Igualmente em tese, nas seções de temas livres e posters, pesquisadores iniciantes mostram resultados preliminares e aproveitam a oportunidade para aprimorar seu trabalho visando publicações.  Muito gratificante, congressos oferecem oportunidades de tirar dúvidas pessoais e fazer perguntas capciosas diretamente a um palestrante famoso.

Os “em tese”, foram colocados acima porque nem sempre os objetivos listados são atingidos. Palestrantes que não dominam em profundidade assuntos para os quais foram escalados acabam por não ter experiência pessoal a ser compartilhada. Paradoxalmente, outros convidados, ao não fazerem trabalho de revisão profundo sobre um tema, limitam-se a fornecer apenas visões pessoais ultrapassadas. Vamos ser justos com os organizadores dos eventos: essas duas situações eram muito mais comuns no passado do que nos dias de hoje.Porém, problemas em seções de temas livres e posters parecem que estão se tornando mais frequentes: avaliadores escalados, não raro, simplesmente não aparecem para analisar o material e dar uma opinião ao apresentador. As discussões de temas livres em eventos nacionais tendem a ser superficiais, talvez devido ao receio de causar mágoa a um jovem apresentador (esse politicamente correto me mata…)

Atenção organizadores de congressos: é de bom tom colocar 10 minutos ao final das mesas redondas para que a platéia possa fazer perguntas do seu interesse. Preencher todo o horário disponível com palestras é contraproducente!

Apesar desses pequenos problemas, e mesmo frequentando congressos médicos há 34 anos, tenho de admitir que quando estou num deles ainda fico envolvido pela tal atmosfera de “excitação e eletricidade”. E acho que isso tem a ver com essa “agenda oculta”.

Eu fico satisfeito quando encontro pessoalmente um autor internacional famoso. Mais do que isso, é muito prazeroso encontrar antigos mentores e professores que foram importantes para minha formação médica e pessoal.

É muito bom rever colegas e amigos de longa data e tomar conhecimento do que acontece em suas vidas.

É muito bom constatar que não sou o único que está envelhecendo…

E de alguns anos para cá, é especialmente gratificante encontrar ex-residentes e alunos que agora trilham um caminho próprio de sucesso.

Não acredito que um médico deva comparecer obrigatoriamente a todo congresso médico que surja. Porém, ir a um congresso a cada um ou, no máximo, a cada dois anos, é altamente desejável. Certamente que a importância não vem apenas da atualização e do aprendizado, que hoje podem ser também atingidos por diversos meios eletrônicos. Igualmente ou mais importante é o convívio social, o networking, a possibilidade do surgimento de novas oportunidades profissionais e empregos.

Ual! acho que já estou pronto para o próximo!

Referências

# Mata H, Lothan TP, Ransome Y. Benefits of professional organization membership and participation in national conferences. Considerations for students and new professionals. Health Promot Pract 2010; 11: 450-3.

# Older J. Personal view. BMJ 1985: 209-930

# Walsk K. Rethinking the role of conferences in academia. Acad Med 2015; 90: 4

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