Pneumotórax.

A tuberculose acompanha a raça humana há milênios. Evidências da infecção já foram encontradas em autópsias de múmias egípcias. Estima-se que em todo o mundo o número de mortes anuais devido à tuberculose chegue a 9,5 milhões, a doença acometendo principalmente países de condições econômicas ruins. É importante notar que esses números ainda persistem apesar da existência de tratamentos medicamentosos altamente eficazes contra o Mycobacterium tuberculosis.

A era dos tratamentos quimioterápicos efetivos para tuberculose iniciou-se em 1945, com a caracterização das propriedades da estreptomicina, inicialmente in vitro e em modelos animais. A partir de 1950 a quimioterapia antituberculosa ganha enorme estímulo, consolidando-se como tratamento padrão para a doença.

Entretanto ao longo dos séculos sempre houve iniciativas visando o tratamento das doenças. Por isso, antes da estreptomicina várias drogas haviam sido experimentadas como possíveis agentes antituberculosos como, por exemplo, óleo de chalmoougra, óleo de fígado de bacalhau e sais de ouro.

Um tratamento clássico para tuberculose, que esteve em voga principalmente entre o final do século XIX e metade do século XX era o pneumotórax. Ele se enquadra dentro de uma proposta mais ampla de terapia denominada colapsoterapia. Em 1822 o médico inglês James Carson teria observado que pacientes com tuberculose pulmonar que desenvolviam pneumotórax ou derrames pleurais, acabavam exibindo uma melhor evolução clínica. Ele então propôs que o colapso compressivo promoveria repouso do tecido doente, o que facilitaria o processo da cura. Para ele os movimentos respiratórios repetidos levariam a traumatismos das cavernas tuberculosas o que impediria a recuperação. Com a colapsoterapia os traumatismos seriam minimizados facilitando a cicatrização.

Apesar desse conceito ter sido emitido no começo do século XIX, só na década de 1880 foram feitas tentativas de sua aplicação clínica. Em 1885 De Cerenville fez um procedimento ressecando as costelas próximas a lesões doentes pulmonares. Na mesma época outros médicos também foram pioneiros nesse tipo de toracoplastias.

Um fato realmente revolucionário aconteceu em 1888, quando o médico italiano Carlo Forlanini efetuou o primeiro pneumotórax terapêutico para tuberculose pulmonar e relatou resultados satisfatórios. O procedimento envolvia a injeção de ar no espaço pleural por agulha ligada à seringa e à coluna de água para controle do volume de ar injetado e da pressão gerada. Contudo a presença de aderências pleurais impedia o procedimento em inúmeros doentes. Por isso, em 1912, Jacobeus aprimorou a técnica pelo acoplamento de um cistoscópio para desfazer as aderências.

Evidentemente que a terapia do pneumotórax não era isenta de problemas. Em grande número de casos não se conseguia um volume adequado de ar para o colabamento, não raro em pouco tempo o ar era absorvido requerendo novas punções, sem contar o risco constante de empiemas. Por isso, outras técnicas de colapsoterapia foram propostas tais como o óleotórax, o pneumotórax extrapleural ou o uso de bolinhas de lucite. Apesar desses problemas, o pneumotórax pela técnica de Jacobeus tornou-se extremamente popular e muito usado no Brasil particularmente nas décadas de 1920 e 1930.

É difícil agora avaliarmos qual foi o real impacto do uso de pneumotórax e outras formas de colapsoterapia no tratamento da tuberculose na era pré-quimioterapia, principalmente pela ausência de estudos feitos com metodologias modernas de pesquisa clínica. Contudo podemos supor que, de fato, tenha beneficiado muitos pacientes.

Se a real eficácia do pneumotórax para tratamento da tuberculose pulmonar é duvidosa, não podemos falar o mesmo sobre a sua contribuição para a poesia. Um dos poemas mais geniais da literatura brasileira e uma das maiores manifestações artísticas mundiais relacionadas com a tuberculose é Pneumotórax de Manuel Bandeira.

Manuel Bandeira (1886-1968) veio do Recife para São Paulo estudar arquitetura na Escola Politécnica de São Paulo no ano de 1904. Tinha então 18 anos. Morando em São Paulo acabou por adquirir tuberculose pulmonar o que o levou a abandonar os estudos. Esteve internado em diferentes sanatórios em diversas cidades como  Terezópolis, Petrópolis e mesmo Clavadel na Suiça.

Em 1930 Manuel Bandeira publicou seu quarto livro de poesias “Libertinagem”, considerado sua primeira obra inteiramente modernista. Entre 38 poemas clássicos como, por exemplo, “Vou-me embora para Pasárgada” estava “Pneumotórax”:

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:

– Diga trinta e três.

– Trinta e três… trinta e três… trinta e três…

– Respire.

– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Passados 85 anos o poema continua atual, não só pela importância da doença respiratória, pela caracterização das manifestações clinicas como, principalmente, pela transmissão da vivência de um ser humano diante da notícia de uma doença terminal.

Atribui-se grande influência da tuberculose sobre a obra de Manuel Bandeira, vista pelos críticos como repleta de angustia, melancolia e mesmo pessimismo. Curioso notar que Manuel Bandeira só morreu aos 82 anos e não de tuberculose, mas sim de hemorragia digestiva alta.

Pneumotórax declamado pelo próprio autor pode ser acessado neste link

 

Referências

 

Bandeira M. Libertinagem. 2aed, Global, RJ, 80p.

Bethlem N. A estreptomicina no tratamento da tuberculose pulmonar. Tese de Livre Docência, FNM, 1952, RJ, 107 p.

Zerbini EJ. O pneumotórax extra-pleural. Tese de Livre Docência, FMUSP, 1941, SP, 195p.

 

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