Dispneia e Música.

Uma das queixas mais importantes em pacientes com insuficiência respiratória crônica (IRpC) é dispneia. Esse sintoma contribui para redução das atividades do cotidiano e, como consequência, grande prejuízo da qualidade de vida.

Além da limitação para realização de exercícios, a dispneia também pode levar a respostas secundárias de natureza emocional, em especial ansiedade. Esse último sintoma já foi identificado em até 96% dos pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Dispneia e ansiedade podem contribuir decisivamente para redução das atividades físicas o que, por sua vez, leva a prejuízo do condicionamento cardiovascular e muscular periférico. Os dois últimos fenômenos contribuem então para mais dispneia e ansiedade, fechando-se um ciclo vicioso.

Dentro desse contexto, o treinamento físico de pacientes com IRpC, habitualmente realizado como parte de um conjunto de intervenções terapêuticas conhecidas como reabilitação pulmonar, costuma trazer grandes benefícios.

O condicionamento físico supervisionado de pacientes com DPOC, realizado três vezes por semana por pelo menos 20 minutos, ao longo de três ou quatro meses, leva à redução da intensidade da dispneia para uma mesma carga de trabalho e, por consequência, redução da ansiedade, aumento da confiança e melhora da qualidade de vida. A “dessensibilização” da dispneia deve-se, na sua maior parte, ao retardo e redução da produção de ácido lático pelo metabolismo muscular anaeróbico para uma mesma carga de trabalho. A menor produção de ácido lático pelos músculos bem condicionados suprime um estimulo de hiperventilação no centro respiratório e a redução do trabalho respiratório reduz a dispneia.

Outra estratégia que já foi proposta para reduzir a sensação de dispneia de pacientes com IRpC é o emprego de estímulos auditivos distrativos (distractive auditory stimulus), ou simplesmente, ouvir música…

Ao ouvir música, em especial a clássica e suave, o paciente dispneico mudaria o foco de atenção do sintoma para o estímulo externo, ao mesmo tempo que se tornaria mais relaxado e menos ansioso.

Alguns estudos investigaram essa hipótese, basicamente em pacientes com DPOC. De modo geral as casuísticas foram pequenas e os resultados promissores. Já foi demonstrado que a música isoladamente leva a redução da dispneia e da ansiedade até imediatamente após o seu uso, mas não interfere na intensidade habitual do sintoma a longo prazo (McBride et al, 1999).

Recentemente Lee et al (2015) publicaram uma revisão sistemática sobre o tema, completada com meta-análise. O principal objetivo da pesquisa era investigar se o uso de música durante o treinamento de exercício de pacientes com DPOC pode leva-los a atingir cargas de trabalho maiores e  redução das sensações respiratórias desagradáveis a longo prazo.

Os autores identificaram 29 estudos sobre o tema, sendo que 16 foram excluídos da análise devido a limitações. Dos 13 incluídos, cinco eram relacionados com o uso de música durante treinamento de exercício, cinco durante a realização de testes de exercício máximo e três no controle de sintomas em repouso.

Mesmo os estudos incluídos exibiram muitas limitações tais como a falta de desconhecimento, por parte dos coletores dos dados, da intervenção adotada nos pacientes e o baixo número de voluntários incluídos. De modo geral a qualidade das evidências relativas aos desfechos foi classificada como baixa ou muito baixa.

O que pode ser tirado pelos autores desse estudo foi que:

  • O uso da música em pacientes com DPOC durante o repouso tem efeitos inconsistentes sobre a sensação de dispneia e ansiedade.
  • O treinamento de exercício na forma de caminhadas com simultânea audição de música tem melhores resultados do que as caminhadas sem música. A longo prazo, os pacientes que fizeram caminhadas ouvindo música exibiram maiores ganhos de performance física, redução da sensação de dispneia e melhorias da qualidade de vida.             Os últimos achados devem ser explicados pelo fato da música durante os exercícios desviar a atenção de sensações corporais desagradáveis, como a fadiga, e permitir ao voluntário atingir maiores platôs de atividades. Melhor treinados, após alguns meses, os ouvintes de música durante o exercício acabam por exibir maiores ganhos também no tocante aos sintomas em repouso.

A minha impressão é de que ainda faltam estudos definitivos, bem desenhados e bem conduzidos sobre o tema. Enquanto essas publicações não surgem, não me parece perigoso ou antiético recomendar aos pacientes com DPOC ouvirem música durante atividades físicas, ou mesmo em repouso.

Se não fizer grande bem para o físico, pelo menos fará grande bem para a alma!

Referências

Lee AL, Desveaux L, Goldstein RS, Brooks D. Distractive auditory stimuli in the form of music in individuals with COPD: A systematic review. Chest. 2015;148: 417-29.

McBride S, Graydon J, Sidani S, Hall L. The therapeutic use of music for dyspnea and anxiety in patients with COPD who live at home. J Holist Nurs. 1999;17: 229-50.

Mikkelsen RL, Middelboe T, Pisinger C, Stage KB. Anxiety and depression in patients with chronic obstructive pulmonary disease (COPD). A review. Nord J Psychiatry. 2004;58: 65-70.

 

 

 

 

 

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