História Clínica no Diagnóstico da Dor de Ombro Não Traumática

Dores nos ombros são queixas comuns na prática clínica, especialmente em idosos. Estima-se que até 66,7% das pessoas irão apresentar esse sintoma em algum momento da sua vida. O diagnóstico preciso da etiologia do sintoma pode ser difícil, uma vez que os dados de exame físico costumam ser indeterminados.

Por isso, em anos recentes, tem-se observado um uso crescente de exames de imagem para investigação desses quadros, não raro com frequência excessiva. Dados indicam que 41% dos pacientes com dor de ombro não traumática que procuram um ortopedista especializado, já chegam com uma ressonância magnética feita, sem que tal exame influencie no desfecho final do quadro ou na conduta a ser tomada.

Em estudo recente, Raynor & Kuhn mostram uma revisão sistemática realizada com o objetivo de determinar dados de história clínica potencialmente capazes de auxiliar no diagnóstico diferencial dessa condição.

Os autores fizeram uma pesquisa eletrônica em banco de dados do MEDLINE (1946 a 2012) e EMBASE (1980-2012). Partindo de um total de 2903 artigos, após extenso processo de análise, acabaram por incluir no estudo apenas 21 manuscritos.

Os autores não encontraram nenhum estudo relacionado com os seguintes diagnósticos: tendinite bicipital, bursite subacromial e tendinite do manguito rotator. Nove estudos forneceram dados relativos à ruptura do manquito rotator, três à artrite acromioclavicular, dois à artrite glenohumeral, um à tendinite calcificada, dois à capsulite adesiva e quatro à ruptura labral. Os resultados obtidos estão listados na Tabela abaixo.

Tabela

 Vários elementos se associaram a maiores riscos de ruptura do manguito rotator: idade mais avançada, história familiar, tabagismo, hipotireoidismo, obesidade (IMC > 30), historia de trabalho pesado ou que envolva vibração dos membros, atividades que demandam elevação de peso além da altura do ombro, e acometimento do membro dominante.

Praticar levantamento de peso esteve associado à artrose da junta acrômio-clavicular.

Artrite glenohumeral grave mostrou-se associada a antecedentes de deslocamento do ombro, idade superior a 70 anos e história de osteoartrite de joelho.

A presença de capsulite adesiva do ombro esteve associada a diabetes, doenças da tireoide e doença de Parkinson.

Finalmente, rupturas labrais posteriores mostraram associação com sexo masculino e antecedentes de ter jogado futebol americano.

Naturalmente que os dados disponíveis na literatura ainda são bastante incompletos e que muitas dessas associações encontradas podem ser espúrias e devem ser confirmadas em estudos de melhor qualidade. Além disso, história clínica de dor que se prese poderia explorar melhor as características do sintoma propriamente dito.

De qualquer modo não deixa de ser interessante constatar que, mesmo num tema tão complexo da ortopedia que são as lesões não traumáticas de ombro, a história clínica também pode desempenhar papel importante para sugerir um entre vários diagnósticos diferenciais.

 

Referências

Bradley MP, Tung G, Green A. Overutilization of shoulder magnetic resonance imaging as a diagnostic screening tool in patients with chronic shoulder pain. J Shoulder Elbow Surg. 2005 May-Jun;14: 233-7.

Luime JJ, Koes BW, Hendriksen IJ, et al. Prevalence and incidence of shoulder pain in the general population; a systematic review. Scand J Rheumatol. 2004;33: 73-81.

Raynor MB, Kuhn JE. Utility of features of the patient’s history in the diagnosis of atraumatic shoulder pain: a systematic review. J Shoulder Elbow Surg. 2015 Dec 17. pii: S1058-2746(15)00543-1. doi: 10.1016/j.jse.2015.09.023

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