Lepídico?

No ano de 2011, sociedades médicas introduziram uma nova classificação histológica para os adenocarcinomas de pulmão. As formas invasivas dessa neoplasia ficaram então classificadas em cinco categorias: (i) lepídico, (ii) acinar, (iii) papilar, (iv) micropapilar e (v) sólido. À medida que essa classificação foi ficando conhecida, o termo lepídico caiu no uso cotidiano. Contudo o real significado da palavra ainda é motivo de confusão. Na verdade, mesmo textos consagrados de patologia relatam explicações para o termo que carecem de bases reais.

Essa questão levou o autor Kirk Jones a publicar no Archives of Pathology & Laboratory Medicine, já no ano de 2013, um texto bastante elucidativo sobre o tema, cujos pontos mais importantes são reproduzidos aqui.

O termo lepídico foi originalmente proposto por John George Adami, professo de Patologia na McGill University, em 1902. Este autor propôs que, no geral, haveria dois tipos de tumores: os lepídicos, aparentemente derivados de tecidos e membranas de revestimento, e os ílicos, derivados dos tecidos conectivos.  Lepídico deriva então do grego λεπις, cujo significado é pele ou membrana. Esses termos, e esta classificação dos tumores, foram posteriormente publicados pelo mesmo autor em seu livro Principles of Pathology, em 1908.

Esses termos caíram em desuso por muitas décadas, a não ser, esporádicamente empregados na literatura proveniente da Inglaterra. De qualquer modo, o termo lepídico utilizado, até aí, para indicar estruturas com crescimento do tipo “cobertura de superfície”.

No ano de 1962, Hebert Spencer publicou o livro texto Pathology of the Lung, onde utilizou a palavra lepídico dentro do seu contexto atual. O autor afirmou que “os tumores podem crescer no alvéolo de duas maneiras: ou preenchendo-os com uma massa sólida de células malignas (crescimento hílico) ou revestindo suas paredes (lepídico).”

Nos anos 90, não se sabe bem ao certo de onde, surgiu uma interpretação fantasiosa para o termo lepídico. Segundo alguns textos, ele seria relacionado com lepidóptera, ou seja, do gênero de insetos em que se incluem as borboletas. As justificativas para o seu uso eram então embasadas por afirmações do tipo: “lembrando borboletas pousadas em uma cerca”, ou ainda, “lembrando os degraus de uma asa de borboleta”. Esse tipo de interpretação só agravou a confusão relativa ao uso da referida palavra.

Portanto, podemos agora afirmar, com tranquilidade, que o termo lepídico refere-se a células tumorais de adenocarcinoma, proliferando ao longo da superfície de paredes alveolares intactas, sem invasão estromal ou vascular.

E para concluir, vale ainda parafrasear John Adami, quando ele se referiu ao curso de patologia que administrava aos alunos do curso médico:

 “É verdade que o ignorante e charlatão pode se tornar rico, e é verdade que ele pode produzir curas aparentes, ou até mesmo reais, sem saber uma palavra sobre a ciência da medicina, mas o objetivo disto (curso de patologia) não é fazer um homem rico, mas sim torna-lo capaz de pensar e útil para a comunidade”.

Nada mais atual…

 

Referências

Jones KD. Whence lepidic?: the history of a Canadian neologism. Arch Pathol Lab Med. 2013; 137: 1822-4.

Travis WD, Brambilla E, Noguchi M, et al. International association for the study of lung cancer/american thoracic society/european respiratory society international multidisciplinary classification of lung adenocarcinoma. J Thorac Oncol. 2011;6: 244-85

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