O Que é Bendopneia?

Quando se discute dispneia, vem à mente uma série de denominações meio estranhas, tais como ortopneia, platipneia e trepopneia. Recentemente, um novo termo foi acrescentado a essa lista, a bendopneia. Na verdade, quem me chamou a atenção para o novo termo foi o nosso residente Dr. Leandro Yamamoto.

Bendopneia é definida como o surgimento de dispneia em um paciente que, a partir da posição sentada, inclina-se ou dobra-se para frente, geralmente para executar alguma tarefa como, por exemplo, colocar meias ou amarrar os sapatos. A palavra original inglesa é bendopnea, que deriva do verbo to bend que significa dobrar.

A bendopneia foi descrita, pela primeira vez, por Thibodeau et al (2014) em pacientes com insuficiência cardíaca sistólica grave. Naquele estudo foi analisada uma amostra de conveniência composta por 102 pacientes com fração de ejeção menor ou igual a 40%, os quais iriam ser submetidos a cateterismo cardíaco direito. Tais voluntários foram avaliados imediatamente antes da realização do exame por um clínico independente. Bendopneia foi definida como o surgimento de dispneia em um paciente sentado, pelo menos 30 segundos após a adoção de posição dobrada para frente. Nesse grupo de pacientes a prevalência do sintoma foi 28% e o tempo mediano em posição fletida para o seu surgimento foi 8 segundos.

Bendopneia foi mais comum em pacientes com outros sinais e sintomas de insuficiência cardíaca descompensada, tais como ortopneia, dispneia paroxística noturna e elevação da pressão jugular interna avaliada pelo exame físico. Além disso, a ocorrência desse tipo de dispneia não pode ser atribuída a diferenças em tamanho da circunferência abdominal entre pacientes com e sem o sintoma.

Os estudos hemodinâmicos, realizados logo em seguida, mostraram que pacientes com bendopneia exibiam valores significativamente maiores das pressões de átrio direito e de capilar pulmonar do que os indivíduos sem o sintoma. Estudos hemodinâmicos adicionais foram realizados em 46 pacientes em posição sentada e em posição fletida. Foi constatado que a adoção da posição dobrada leva à elevações acentuadas das pressões de átrio direito e capilar pulmonar, sem alterações relevantes no índice cardíaco.

Os autores levantam a hipótese de que a bendopneia surja pelo aumento das pressões de enchimento ventriculares, relacionado com a adoção da posição inclinada, em pacientes nos quais tais pressões já se mostravam previamente bastante elevadas.

Mais recentemente, Dominguez-Rodriguez et al (2016) realizaram testes de exercício máximo cardiopulmonar em esteira, em um grupo de 85 pacientes com insuficiência cardíaca. A prevalência de bendopneia nesse grupo foi de 32%. Este grupo mostrou uma proporção maior de pacientes com insuficiência cardíaca nas classes III e IV da NYHA, e que referiam dispneia paroxística noturna, dispneia aos esforços e ortopneia. No tocante ao teste de exercício, a única característica que diferenciou pacientes com e sem bendopneia foi o comportamento da relação VE/VCO2. Nos pacientes com o sintoma a inclinação desssa curva foi bem mais acentuada do que naqueles sem a manifestação, indicando uma propensão para a hiperventilação no primeiro grupo. De importância, a presença de uma curva VE/VCO2 muito inclinada é reconhecida como fator de mau prognóstico em pacientes com insuficiência cardíaca.

Em resumo, bendopneia é uma nova manifestação identificada como associada à insuficiência cardíaca. A sua presença parece ser indicativa de gravidade da doença e, hipoteticamente, no futuro poderá vir a ser melhor caracterizada como marcador de mau prognóstico.

 

Referências

Dominguez-Rodriguez A, Thibodeau JT, Abreu-Gonzalez P, et al. Association between bendopnea and key parameters of cardiopulmonary exercise testing in patients with advanced heart failure. J Card Fail. 2016; 22: 163-5.

Thibodeau JT, Turer AT, Gualano SK, et al. Characterization of a novel symptom of advanced heart failure: bendopnea. JACC Heart Fail. 2014; 2: 24-31.

 

 

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