George III e a Loucura dos Governantes.

Em meio à crise política brasileira atual, surgem comentários em revistas semanais e redes sociais, sobre o comportamento psiquiátrico de personagens envolvidos nos acontecimentos. Há, inclusive, referências ao uso regular de clonazepan e olanzapina, bem como a ocorrência de crises de fúria.

Ao olharmos para o passado, constatamos diversas histórias de governantes atacados por doenças mentais e, para nós brasileiros, vem obrigatoriamente à memória a personagem Rainha Maria I de Portugal, conhecida como “A Louca”.

Uma das histórias mais interessantes envolvendo a saúde mental de governantes é a de George III, rei da Grã Bretanha entre 25 de outubro de 1760 e 29 de janeiro de 1820. O reinado de George III foi muito conturbado, sendo marcado por disputas políticas no parlamento, a Guerra dos Sete Anos contra a França, a Guerra da Independência dos Estados Unidos, contemporaneidade com a Revolução Francesa, e as Guerras Napoleônicas. Além disso, George III foi um monarca muito culto, com grande interesse pela agricultura, ciência e artes. Apesar da perda das Colônias Americanas ter acontecido sob seu reinado, ele sempre foi considerado um governante bastante popular, em especial entre trabalhadores e a classe média.

Se os dramáticos eventos históricos vívidos por George III contribuíram para o desencadeamento ou piora do seu quadro mental é discutível. Contudo, essa associação foi admitida como verdadeira naquela época.

Aparentemente tudo começou em meados de 1765 quando, aos 27 anos, o rei apresentou um quadro de tosse, dor torácica, febre, cansaço e perda de peso. Foi levantada a hipótese de tuberculose e ele foi tratado com sangrias, purgativos e enemas. Por essa época, ao que tudo indica, ele também apresentava um quadro de depressão leve.

Entre 1788 e 1789, com idade entre 50 e 51 anos, o rei apresentou episódios de dor abdominal, febre e icterícia. Pela mesma época apresentou, igualmente, quadro que parece ser crises de mania, com fala incessante e apressada, ideias delirantes, atos de violência física e condutas sexuais inapropriadas. George III foi mantido preso e medicado com sangrias, enemas e purgativos. Ele ainda foi mantido restrito à força em cadeiras especiais e camisas de força. Em dezembro de 1788, o caso foi assumido por Dr. Francis Willis e seus filhos, especialistas em doenças mentais. A abordagem terapêutica tornou-se menos agressiva e foi dado início a um regime de tratamento “visando melhora moral”. O rei recuperou-se da doença e voltou a governar o país, apesar da ocorrência ao longo dos anos de algumas crises menores.

Interessante notar que o médico Francis Willis chegou, posteriormente, a consultar e tratar a rainha Maria I de Portugal, porém sem bons resultados. Igualmente relevante é o fato do reverendo Thomas Willis, filho de Francis, ter visitado o rei periodicamente, entre 1789 e pelo menos 1810, no que parecem ser encontros terapêuticos que lembram sessões de psicanálise.

Lamentavelmente o rei entrou em quadro de demência definitiva em 1810, o que obrigou seu filho George, Príncipe de Gales, a assumir o poder dentro de um regime de regência. O último período da doença de George III durou aproximadamente 10 anos, até a sua morte com 81 anos de idade. Admite-se que ele tenha entrado em um quadro de mania crônica, alternando períodos com maior e menor gravidade.

A natureza da doença de George III é motivo de discussão até os dias atuais. Na década de 1960, Ida Macalpine e Richard Hunter publicaram artigos atribuindo a insanidade de George III a episódios de agudização de porfiria intermitente. Para outros autores, o uso de medicações a base de arsênico poderiam ter piorado esse mesmo quadro. Apesar dessa hipótese ter-se tornado bastante popular, em anos recentes ela tem sido revista. Para os autores atuais o rei poderia ter sofrido de cálculos biliares e o quadro psiquiátrico tem características muito sugestivas de transtorno bipolar.

A história mostra que perturbações psiquiátricas não são incomuns em governantes e, nesses cenários, a melhor conduta é afasta-los da administração e trata-los com a melhor tecnologia e conhecimento disponíveis para a época.

 

Referências

Cox TM, Jack N, Lofthouse S, Watling J, Haines J, Warren MJ. King George III and porphyria: an elemental hypothesis and investigation. Lancet. 2005; 366(9482):332-5.

Macalpine I, Hunter R. Porphyria and King George 3rd. Sci Am. 1969; 221: 38-46.

Peters TJ, Beveridge A. The madness of King George III: a psychiatric re-assessment. Hist Psychiatry. 2010; 21(81 Pt 1):20-37.

 

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