Eu Amo Epônimos!

Segundo o dicionário Michaelis, a palavra epônimo significa “algo ou alguém que dá ou empresta o seu nome a alguma coisa, ou ainda, alguma coisa que recebeu o nome de uma pessoa”.

Tradicionalmente a medicina é campo repleto de epônimos em diversas áreas. Assim por exemplo, na anatomia humana há dezenas de estruturas que foram inicialmente denominadas em homenagem a algum personagem mítico ou ao estudioso que a descreveu. Nós todos conhecemos o tendão de Aquiles (tendão calcâneo), mas certamente teríamos dificuldades em lembrar o que é a gordura de Hoffa (gordura infrapatelar) e a fascia de Gerota (fascia renal). Portanto, nas últimas décadas as associações anatômicas recomendam o abandono do uso dos epônimos anatômicos e o emprego de terminologias mais descritivas. Honestamente, eu não tenho um problema com isso, e acho, inclusive, uma abordagem bastante racional, reservando o conhecimento dos referidos epônimos apenas como referências históricas.

Contudo, quando estamos tratando da terminologia envolvendo síndromes, sinais e mesmo doenças, na minha opinião, o uso de epônimos ainda tem papel relevante.

Assim, por exemplo, como descreveríamos o seguinte achado de exame físico:

“abaulamento expiratório do nono, décimo e décimo primeiro espaços intercostais na linha axilar posterior, que desaparece com a adoção do decúbito lateral oposto, indicando a presença de derrame pleural de pequeno ou médio volume”, senão como Sinal de Lemos Torres? Não seria possível descrever, sempre que fosse identificado o achado, todos os seus componentes e, em seguida, explicar o seu significado. Falando o nome do sinal, pelo menos os conhecedores da sua existência vão entender do que se trata.

E o que dizer de outros achados?

Seria mais fácil se fazer entender ao utilizar a descrição “equimoses periumbelicais indicativas de sangramento retroperitoneal”, ou simplesmente dizer que o paciente apresenta o Sinal de Cullen? Ou ainda, descrever “equimoses nos flancos indicativas de sangramento retroperitoneal, sugestivas de pancreatite necro-hemorrágica grave ou gravidez ectópica rota”, ou simplesmente falar que se trata do sinal de Grey-Turner?

Seria necessário, toda vez que se auscultar um sopro holodiastólico associado a insuficiência da valva pulmonar em consequência de hipertensão arterial pulmonar grave, descrever o mecanismo gerador da sua gênese, ou seria mais prático apenas dizer que o paciente exibe um sopro de Graham-Steel?

Ao meu ver, por fazerem parte das tradições e cultura médicas, os epônimos ajudam os profissionais a se sentirem realmente médicos. Certamente que todas confrarias têm segredos e rituais próprios, e isso não pode ser diferente em uma profissão tão antiga como a arte médica. O uso desse tipo de terminologia ajuda os médicos a se sentirem parte de algo maior, que envolve tradições de longa duração, envoltas nos seus próprios mistérios, cuja construção contou com a contribuição de inúmeros personagens históricos os quais, pelo uso de seus epônimos, homenageamos e ajudamos a perpetuar.

É igualmente interessante notar que, em tempos recentes, com o avanço da imagenologia, um grande número de sinais tem sido descrito em exames complementares como, por exemplo, o sinal do halo invertido ou o sinal de árvore em brotamento em tomografias de tórax. Embora tais sinais normalmente não homenageiem autores, não deixam de ser formas um tanto acanhadas de epônimos. Essa constatação mostra que a prática do uso de epônimos continua viva e forte na medicina.

Gostaria de enfatizar ainda que, na minha experiência pessoal, os críticos de epônimos geralmente não são médicos envolvidos na verdadeira prática clínica cotidiana.

Por tudo isso, eu quero aqui proclamar:

Viva o sopro de Austin-Flint!

Viva o fenômeno de Gallavardin!

Viva a síndrome de Munchausen!

Viva a Granulomatose de Wegener! (mesmo que ele, possivelmente, possa ter sido simpatizante nazista),

Viva o sinal de Throckmorton!

Viva a síndrome de Richardson-Kirk !

Etc! Etc!! Etc!!!

Para o leitor que quiser saber o significado desses e outros epônimos eu sugiro o seguinte site de pesquisa:

Whonamedit? http://www.whonamedit.com/synd.cfm/3723.html

Ou ainda o aplicativo para telefone celular Eponyms que pode ser baixado no iTunes.

Referências

  • Fergunson RP & Thomas D. Medical Eponyms. J Community Hosp Intern Med Perspect. 2014, 31;4.
  • Sliker CW, et al. Emergency radiology eponyms: part 1-Pott’s puffy tumor to Kerley B lines. Emerg Radiol. 2013;20: 103-11.
  • Sliker CW, et al. Emergency radiology eponyms: part 2- Naclerio’s V sign to Fournier gangrene. Emerg Radiol. 2013;20: 185-95.
  • Valette X & dei Cheyron D. Cullen´s and Grey Turner´s signs in acute pancreatitis. NEJM, 2015, 373, e28.

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