Cura Pela Oração?

Espiritualidade e religião são elementos importantes para a maioria das pessoas e tendem a tornarem-se mais pronunciadas em momentos de doença, particularmente as mais graves.

Há evidências que pessoas envolvidas em práticas espirituais e religiosas têm menos doenças e vivem mais do que as demais. Contudo, esse achado pode ser expressão apenas da adoção de estilos de vida mais saudáveis por esses indivíduos. Assim, por exemplo, pessoas que praticam uma religião têm chances menores de ser fumantes, etilistas ou exibir hábitos sexuais de risco.

Não raro, familiares de doentes fazem referências a correntes de oração dirigidas ao benefício do ente querido, e mesmo alguns médicos citam artigos, publicados em revistas de renome internacional, indicando que tais práticas são comprovadamente benéficas. Isso tudo levanta a questão: quais são as reais evidências científicas por detrás de tais práticas?

A literatura internacional usa a expressão intercessory prayer para denominar orações efetuadas à distância com a finalidade do benefício de terceiros. Os mecanismos envolvidos com os benefícios potenciais dessa prática são desconhecidos, e passam por hipóteses que vão desde a intervenção de um ser divino superior, até a transmissão de ondas de energia cerebral ainda não identificadas.

Nesse ponto, é interessante comentar estudo feito no Havaí e publicado em 2005 por Achterberg et al. Os autores selecionaram 11 pessoas que afirmavam possuir dons curativos com práticas a distância, de diferentes tradições religiosas. Cada um desses voluntários indicou uma pessoa, com quem possuíam muita afinidade e empatia, para ser submetido a estudo de ressonância magnética funcional. O “curandeiro” postava-se na sala de controle da ressonância, enquanto o seu par era submetido a escaneamento cerebral. De maneira alternada, sob orientação dos pesquisadores, os “curandeiros” efetuavam práticas espirituais dirigidas para o parceiro acomodado no aparelho. Os resultados mostraram que as práticas mentais à distância levaram a significante ativação de áreas cerebrais dos alvos do estudo como, por exemplo, área frontal, giros do cíngulo anterior e médio e área pré-cuneo.

Devido ao substancial número de estudos sobre o tema intercessory prayer, Roberts et al publicaram em 2009 uma meta-analise englobando 10 estudos e 7646 pacientes.Não foram identificados efeitos significativos da intervenção sobre taxas de mortalidade, estado geral de saúde ou taxas de readmissão hospitalar. Os autores concluíram que os resultados dos estudos eram contraditórios e que não há evidências científicas suficientes para recomendar a prática. Eles inclusive advertem que financiamentos científicos adicionais sejam dirigidos para outros tipos de estudos, mas não os desta natureza.

Recentemente, um grupo de Porto Alegre publicou uma análise acerca das limitações dos estudos existentes e das dificuldades para efetuar investigações sobre o tema (de Aguiar et al, 2016). Entre várias dificuldades eles citam:

  • A intervenção nunca é completamente controlada: nada impede que outras pessoas não envolvidas no estudo estejam orando para o voluntário alocado no grupo não intervenção.
  • Dificuldades para especificar um desfecho primário, que possa ser determinado com precisão.
  • Necessidade de obter termos de consentimento livre e esclarecido para os participantes.

Para esses autores, estudos adicionais ainda merecem ser realizados contemplando aspectos como: (i) inclusão apenas de voluntários que mantenham links afetivos; (ii) inclusão de estudos com animais como, por exemplo, mascotes de estimação doentes ou em pós-operatório; (iii) escolha de desfechos biológicos como, por exemplo, alterações eletroencefalográficas ou de ressonância magnética. E eu acrescentaria: tempo suficientemente longo de acompanhamento para caracterização adequada de um desfecho duro como mortalidade.

Como deve então se comportar o clínico, enquanto tais questões não estão completamente esclarecidas?

Fazer a sua parte e respeitar as crenças alheias é um comportamento adequado e, no mínimo, educado.

Ou como disse para mim, certa vez, uma pessoa querida: Quem sou eu para julgar?

 

Referências

Achterberg J, Cooke K, Richards T, et al. Evidence for correlations between distant intentionality and brain function in recipients: a functional magnetic resonance imaging analysis. J Altern Complement Med. 2005;11: 965-71.

de Aguiar PR, Tatton-Ramos TP, Alminhana LO. Research on intercessory prayer: Theoretical and methodological considerations. J Relig Health. 2016 Jan 7. [Epub ahead of print]

D’Souza R. The importance of spirituality in medicine and its application to clinical practice. Med J Aust. 2007; 186(10 Suppl):S57-9

Roberts L, Ahmed I, Hall S, et al. Intercessory prayer for the alleviation of ill health. Cochrane Database Syst Rev. 2009; (2):CD000368.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>