Sintomas de Doença Aguda Coronariana. Há Diferenças Entre Homens e Mulheres?

A exploração e caracterização dos sintomas são de grande importância em pacientes com suspeita de doença aguda coronariana (DAC). Além disso, no passado admitia-se que o infarto do miocárdio era mais comum em homens do que em mulheres. Contudo, nas últimas décadas, a ocorrência de DAC tornou-se comum em ambos os sexos. Muitos fatores podem ter contribuído para esse fenômeno, entre outros, a piora dos hábitos alimentares, sedentarismo e o aumento do estresse e tabagismo entre as mulheres.

Outra justificativa para falta do reconhecimento imediato de episódios de DAC em mulheres seria a frequência maior de sintomas atípicos em pessoas desse sexo. Vários estudos abordaram essa questão, alguns deles em publicações recentes. Contudo, uma crítica feita a muitos desses estudos é sua natureza retrospectiva e a falta do emprego de um instrumento padronizado para avaliação.

A autora Holli DeVon, da Escola de Enfermagem da Universidade de Illinois em Chicago, dedica-se a estudar esses aspectos e é autora de pelo menos dois artigos bem desenhados sobre o problema.

Em ambos estudos o seu grupo empregou uma escala de avaliação padronizada que envolvia anotar a presença ou ausência de 13 sintomas, em pacientes que se apresentaram em serviços de urgência com suspeita de insuficiência coronariana, a saber:

1) Aperto no peito. 2) Dor no ombro. 3) Sudorese. 4) Palpitações. 5) Desconforto torácico. 6) Dor das costas superior. 7) Dispneia. 8) Dor no braço. 9) Cansaço incomum. 10) Naúseas. 11) Vertigens. 12) Dores no peito. 13) Má digestão.

No estudo mais recente, de junho de 2016, foram analisados dados de 1064 pacientes, que procuraram atendimento em cinco serviços de urgência distintos dos EUA, devido suspeitas de DAC. Havia 400 mulheres e 664 homens e ao final da investigação clínica, na soma total, apenas 475 indivíduos (45,5%) foram diagnosticados com a doença.

No grupo de pacientes diagnosticados com DCA as queixas mais frequentes, tanto para homens como para mulheres, foram dor no peito, aperto no peito e desconforto no peito. Isoladamente, nesse grupo, a queixa principal mais comum foi dor no peito, tanto entre homens (54,3%) como entre mulheres (42,7%). Entre pacientes com DAC, as mulheres exibiram chances significantemente menores de referir dor torácica como queixa principal, em comparação aos homens. É importante notar que dor no peito também foi a queixa mais comum entre homens e mulheres nos quais DAC foi descartada laboratorialmente (34,5% e 32,7%, respectivamente).

Tanto as mulheres com DAC, como as sem DAC, informaram maior variedade de sintomas do que os homens. No grupo com diagnóstico de DAC as mulheres exibiram maiores chances do que os homens de apresentar os seguintes sintomas: náuseas, dores nas costas superiores e dores nos ombros. Entretanto, no grupo em que o diagnóstico de DAC foi excluído, as mulheres também mostraram maiores chances de referir as seguintes queixas: aperto no peito, náuseas, palpitações e dor nas costas superiores.

Do ponto de vista prático, os resultados do estudo sugerem que:

  1. As diferenças de sintomatologia entre homens e mulheres que procuram serviços de urgência com suspeita de DAC são pequenas.
  2. Dor torácica ainda é o principal sintoma de DAC, tanto em homens como em mulheres.
  3. Mulheres que se apresentam ao serviço de urgência com suspeita de DAC referem maior número e variedade de queixas do que os homens, independentemente do fato do referido diagnóstico vier a ser confirmado ou não.
  4. Para mulheres, dores nas costas superiores e dores nos ombros podem ser manifestações de DAC, principalmente quando associadas a outros sintomas tais como palpitações e náuseas.

Os resultados obtidos podem, em grande parte, refletir um comportamento distinto de homens e mulheres quanto a sua saúde. Possivelmente, os homens procuram serviços de urgência apenas em situações mais dramáticas, quando as chances de terem doenças graves sejam maiores. Ao contrário, as mulheres, mais zelosas do seu corpo, podem procurar os serviços de urgência em situações nas quais as manifestações dos quadros coronarianos sejam ainda apenas iniciais, ou devido a outras causas. Fala a favor dessa última hipótese o fato de, no referido estudo, o percentual de outros diagnósticos que não DAC entre as mulheres tenha sido 67,3%, enquanto entre os homens esse valor foi de 48,3% .

Referências

Devon HA, et al. Sensitivity, specificity, and sex differences in symptoms reported on the 13-item acute coronary syndrome checklist. J Am Heart Assoc. 2014 2;3(2):e000586.

DeVon HA, et al. Symptoms suggestive of acute coronary syndrome: When is sex important? J Cardiovasc Nurs. 2016 Jun 8. [Epub ahead of print]

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