Multis Canis Dominis Sentat Fames ! (i)

Do meu ponto de vista, o cuidado contínuo e repetido dos pacientes pelo mesmo médico é elemento fundamental para o sucesso terapêutico. Somente contatos repetidos e prolongados entre as duas partes permitirão o estabelecimento de relações médico-paciente satisfatórias. Somente contatos repetidos permitirão aos pacientes adquirir confiança em seus médicos. Somente contatos repetidos permitirão aos médicos adquirir conhecimento aprofundado não apenas da doença, como também do seu portador e, desse modo, desenvolverem empatia.

Entretanto, em tempos recentes, o que se observa é justamente a raridade do seguimento continuado dos pacientes pelo mesmo médico ou grupo de médicos. Várias são as situações responsáveis por esse estado de coisas, entre elas:

  1. Boa parte dos pacientes procura atendimento médico apenas quando muito sintomáticos, em serviços de urgência, são atendidos por plantonistas e não procuram ambulatórios para tratamentos de manutenção.
  2. A hierarquização do sistema único de saúde (SUS) frequentemente dificulta o acesso direto a serviços de atendimento terciários, mesmo a pacientes com moléstias complexas que já estejam sendo regularmente lá acompanhados.
  3. Pacientes são vistos como membros de um sistema de saúde, público ou privado, ao invés de serem vistos como ligados ao prestador de serviços individual. O paciente acaba sendo atendido por “quem estiver disponível” e não “pelo seu médico”.
  4. Pacientes muito complexos acabam sendo vistos por diversos especialistas.
  5. O interesse excessivo pela especialização médica, não disponibiliza aos usuários generalistas em número suficiente ou com formação médica adequada.

Como consequência, surgem distorções operacionais e sérios prejuízos aos usuários dos sistemas de saúde. Parte dessas questões já foi abordada em post publicado há algum tempo sob o título O Fenômeno Baudelaire.
De importância fundamental, é preciso reconhecer, agora, que os fatos listados acima tornam impossível a construção de um vínculo terapêutico adequado entre o paciente e o responsável pelo seu atendimento de saúde. Ou como frequentemente é comentado nos corredores dos hospitais: “Cachorro com muitos donos passa fome”.

Como acredito piamente nessa máxima e ficaria muito deselegante utilizá-la em ambientes acadêmicos, ou em eventos com representantes governamentais, optei por traduzi-la para o latim:

Multis Canis Dominis Sentat Fames = Muitos Proprietários do Cão Representa Fome”.

Ótimo, agora temos uma citação que soa digna das tradições médicas !

Acredito que o tema é vasto e merece ser abordado a partir de diferentes óticas.

Vamos começar com os resultados do trabalho publicado por Maciejewski et al em 2014.

Na introdução desse estudo os autores, baseados em publicações prévias, enfatizam que, em pacientes com doenças crônicas múltiplas, consultar muitos médicos, sem uma adequada coordenação, é risco para desfechos sub-ótimos em diversas intervenções de saúde:

  1. Em uma amostra de 315 idosos, os riscos para admissão hospitalar por falta de aderência ao uso de medicações aumentam com o número de médicos vistos regularmente.
  2. O número de médicos que atendem o doente é o fator com maior poder de predizer a ocorrência do uso de combinações inapropriadas de drogas.
  3. Ter muitos médicos é um fator de risco significativo para uso de medicações desnecessárias após alta hospitalar.

No seu estudo Maciejewski et al exploraram a associação entre número de médicos dos pacientes e riscos para readmissão hospitalar e necessidade de procurar atendimentos de urgência.

Foi um estudo retrospectivo envolvendo 7933 pacientes acompanhados em uma única unidade de saúde ligada a Veterans Administration nos Estados Unidos. Foram incluídos no estudo pacientes com um a quatro diagnósticos de condições cardiometabólicas comuns, a saber: diabetes mellitus, hipertensão arterial, dislipidemia e insuficiência cardíaca congestiva, atendidos no ano de 2008. Os dados dos prontuários eletrônicos dos pacientes foram analisados por dois anos adicionais: 2009 e 2010.

Os principais resultados do estudo foram: (i) quanto maior o número de condições mórbidas presentes, maior o número de médicos seguindo um determinado paciente; (ii) a probabilidade de procurar atendimento de urgência (pronto socorro) por uma causa cardiometabólica foi significantemente associada com o número de médicos prescritores do paciente, mas não com o número de drogas prescritas ou o número de condições mórbidas exibidas; (iii) uma analise multivariada de todas as causas de internação hospitalar mostrou que o risco de admissão hospitalar aumentava com o número de médicos prescritores, mas não com o número de doenças apresentadas.

Os autores discutem que, para esse grupo de pacientes, o número de médicos prescritores foi um fator prognóstico superior da necessidade de visitas ao pronto socorro e de internações hospitalares, do que o número de doenças cardiometabólicas presentes. Pode-se então especular que a maior necessidade de cuidados médicos seja explicada por menor aderência ao uso de múltiplas drogas por pacientes com diversos médicos. Talvez a redução do número de médicos acompanhando um paciente leve a desproporcionada diminuição da utilização de recursos do sistema de saúde !

Como podem ser explicados os resultados desse estudo? Talvez seja mais fácil para um paciente aderir a recomendações terapêuticas emitidas por um único médico, com quem acabe por estabelecer relação médico-paciente mais profunda.

Seja como for esta é apenas uma das evidências científicas de que, realmente,

                                                             Multis Canis Dominis Sentat Fames!

Referência

Maciejewski ML, Powers BJ, Sanders LL, et al. The intersection of patient complexity, prescriber continuity and acute care utilization. J Gen Intern Med. 2014; 29: 594-601.

 

 

 

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