A Doença de Chopin.

Frédéric Chopin, um dos maiores pianistas e compositores da história, nasceu em Żelazowa Wola, a 60 quilômetros de Varsóvia, Polônia, no dia 22 de fevereiro de 1810. Aos sete anos de idade publicou a sua primeira Polonesa e, aos oito anos, deu seu primeiro conserto de piano em público. Além disso, deixou para a posteridade mais de 166 composições originais de diferentes tipos. Infelizmente, Chopin faleceu precocemente, com 39 anos apenas, em Paris, no dia 17 de outubro de 1849.

Indiscutivelmente Chopin faleceu de uma doença pulmonar crônica e cor pulmonale, após longos anos de padecimento. O atestado médico, assinado por Cruveilhier, deu como causa mortis “Tuberculose da laringe e dos pulmões”, o que parece encaixar-se bem com as principais manifestações clínicas apresentadas pelo compositor por vários anos: febre, dispneia, dores, fraqueza, desnutrição, palidez e hemoptises.

Contudo, mais recentemente, alguns autores têm levantado a possibilidade de outros diagnósticos como sendo a moléstia crônica de Chopin, em especial, deficiência de alfa-1-tripsina e fibrose cística. Grande parte do problema advém do fato das anotações da autópsia de Chopin, realizada por Cruveilhier, terem desaparecido. Além disso, há referências de terceiros sobre o médico, após algum tempo, ter-lhes comunicado que “a autópsia não determinou a causa da morte, mas parecia que os pulmões estavam menos afetados do que o coração. É uma enfermidade que nunca havia encontrado previamente”.

Além disso, Chopin ao longo da sua vida passou por mais de 30 médicos e muitos deles lhe asseguraram que ele não sofria de tuberculose, muito embora frequentemente não conseguissem concluir um diagnóstico definitivo.

Ao que tudo indica a doença de Chopin não era deficiência de alfa-1-antitripsina, pois Cruveilhier conhecia esse tipo de patologia, recém descrita por Laennec,  e não teria dificuldades para diagnostica-la. Além disso, as manifestações respiratórias de Chopin começaram antes da idade adulta, o que seria muito atípico para esse tipo de doença pulmonar.

Os fatos mostram que uma irmã de Chopin, Emilia, morreu aos 14 anos de idade de doença pulmonar e poderia ter contaminado o irmão com tuberculose pela mesma época. Para outros, a morte da irmã fala a favor da ocorrência de uma doença respiratória genética. Outro indicio a favor de fibrose cística é o fato de Chopin não ter tido filhos, apesar do relacionamento de oito anos com George Sanders. Todavia, a própria amante confidenciou, em carta à amiga, que só manteve relações sexuais com o compositor no primeiro ano de convívio conjugal.

Outros achados sugestivos de fibrose cística é a história de ocorrência de episódios de diarreia e de grave comprometimento nutricional, mesmo na infância. Contudo, seria pouco provável que um paciente com fibrose cística sobrevivesse até os 39 anos numa era sem antibióticos e cuidados respiratórios especializados. É bem sabido que existem formas atípicas de mucoviscidose que, não raro, são reconhecidas apenas na idade adulta. Certamente que esta possibilidade não pode ser completamente descartada. Contudo, principalmente em função dos dados epidemiológicos da época e da evolução arrastada da doença, tudo indica que Chopin sofria mesmo de uma forma de tuberculose crônica e indolente.

Independentemente de qual tenha sido a real natureza da doença de Chopin, os males respiratórios influenciaram enormemente sua vida e, ao que tudo indica, a própria produção artística. Precisou abandonar Paris e se instalar na ilha de Majorca em busca de clima mais favorável para sua saúde, e lá acabou por produzir muitas das obras mais importantes da sua carreira.

Citando literalmente José Rosemberg:

O amigo Liszt “considerou também que os 29 prelúdios op. 28, compostos em Majorca, refletem não só as explosões de suas reações, como às vezes a euforia que precede à morte. Em verdade, nos momentos mais agudos do amargo cortejo sintomatológico, Chopin munia-se de forças atingindo o clímax da criação. Daí a maravilha dos seus improvisos que brotavam em borbotões sob influxo da febre para em seguida cair extenuado, como descreveu George Sand. Quanta música sublime, não anotada, se perdeu, a qual ninguém mais ouviu. Em suma, esse mago que fez do piano uma verdadeira orquestra, para este transferiu as sonatas, baladas, noturnos e prelúdios, seus estados de alma, com tons ora líricos, alegres, esperançosos, ora melancólicos, amargos e trágicos. Estranho paradoxo: o bacilo de Koch, ao mesmo tempo que destruiu seu corpo, exaltou-lhe a inspiração e a criação de arte sublime que se tornou eterna.”

O próprio Chopin escreveu “No piano expresso meu desespero“.

Quando percebeu que a morte se aproximava, Chopin deixou uma série de recomendações, entre elas que no seu enterro fossem tocadas as peças Réquiem de Mozart e os Prelúdios de sua autoria 4 em mi menor e 6 em si menor.

O Prelúdio 4 em mi menor também é hoje conhecido como Sufocação, denominação dada pelo maestro e pianista alemão Hans Von Büllow, discípulo de Lisz, devido a sensação de desespero transmitida pela música. De relevância, a última anotação musical nesta peça, colocada por Chopin, é smorzando, que pode ser traduzido como desaparecendo ou  extinguindo-se.

Vale salientar ainda que a máscara mortuária de Chopin, produzida por Auguste Clesinger foi rejeitada pela família, pois mostrava claramente feições de sofrimento desencadeadas por dispneia e asfixia…

Você pode ouvir o Prelúdio 4 em mi menor (Sufocação) clicando este link.

 

Referências

# O’Shea JG. Was Frédéric Chopin’s illness actually cystic fibrosis? Med J Aust. 1987; 147: 586-9.

# Rosemberg J. Tuberculose. Aspectos históricos, realidades, seu romantismo e transculturação. Bol Pneumol Sanit. 1999; 7: 5-19.

#  Young P, Bernaciak JM, Bruetman JE, et al. Federico Chopin (1810-1849) y su enfermedad. Rev Med Chile. 2014; 142: 529-535.

 

 

 

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