Doença ou Moléstia?

Em dicionários da língua portuguesa as palavras “moléstia” e “doença” são, via de regra, retratadas como sinônimos. Em tempos recentes um colega substituiu a palavra “moléstia” por “doença”, em um texto de autoria conjunta, alegando que o termo soava antiquado e fora de moda.

Contudo, quando nos aprofundamos na literatura estrangeira, tomamos consciência que seria adequado fazer uma distinção entre os dois termos, a partir do que já acontece na língua inglesa. Certamente que para a quase totalidade das pessoas disease e illness têm o mesmo significado, ou seja, o de doença. Todavia, no campo da antropologia e psicologia médicas, os autores anglo-saxões propõem uma distinção entre os dois vocábulos. Disease corresponderia ao conceito tradicional da doença, de abordagem puramente biológica. Já illness engloba não apenas a doença biológica e suas manifestações, como também as diversas consequências de natureza psicológica, e mesmo social, vividas pelo individuo acometido pelo mal biológico. Nesse contexto, illness é algo bem mais amplo, pois envolve repercussões psicológicas, influências no estado de bem estar e os prejuízos de qualidade de vida.

Acredito que essa distinção também deve ser feita na nossa língua portuguesa: a palavra doença corresponderia a anormalidades de estrutura e função de órgãos e sistemas. Infelizmente, na grande maioria das vezes, é a única preocupação que move a atividade assistencial dos médicos em relação aos seus pacientes nos dias atuais.

Moléstia corresponderia à experiência plena vivida pelo paciente. Ou seja, um conjunto secundário de reações psicológicas, culturais e sociais. Nesse contexto, mesmo padecendo de um mal físico, psicológico ou psiquiátrico, é reconhecido que o paciente ainda mantém as características fundamentais de ser humano e assim deve ser abordado e compreendido.

Mesmo correndo o risco de contrariar definições de prévios autores, eu entendo que moléstia deva ser definida como a soma de todos os fenômenos biológicos da doença, acrescidos do conjunto de manifestações psicológicas, sociais e culturais derivadas.

Uma máxima tradicional da medicina diz que médicos devem tratar doentes e não doenças. Certamente que isso é verdadeiro, mas também devemos acrescentar que médicos devem tratar moléstias e não doenças.

Devemos salientar ainda que a abordagem da moléstia frequentemente demanda a participação de outros profissionais da saúde, dentro de uma abordagem multidisciplinar.

Ao meu ver, médicos que se preocupam com a moléstia do paciente, acabam desfrutando de maior sucesso profissional e de mais satisfação pessoal do que aqueles preocupados apenas com a doença do paciente.

 

Referências

 

Burkett GL. Culture, illness, and the biopsychosocial model. Fam Med. 1991; 23: 287-91.

Eisenberg L. Disease and illness. Distinctions between professional and popular ideas of sickness. Cult Med Psychiatry. 1977;1: 9-23.

Helman CG. Disease versus illness in general practice. J R Coll Gen Pract. 1981; 31: 548-52.

 

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