Doenças e Santos.

Há séculos um grande número de doenças foi associado a determinados santos da Igreja Católica. Isso se deveu à crença popular de que determinadas figuras divinas forneciam proteção para pessoas acometidas por certas doenças.Nesse contexto, foi estabelecida a crença que orações, ou o uso de relíquias ligadas a tais santos, poderiam mitigar os sintomas, ou mesmo levar a cura dessas moléstias.Curiosamente, havia também a crença que tais santos poderiam infringir nas pessoas, como forma de castigo, o mesmo mal que cuidavam.

A convergência a um centro religioso de pessoas acometidas por um mal específico pode ter trazido ganhos de conhecimento e experiência a padres e outros personagens envolvidos no cuidado desses pacientes. A aplicação de determinadas intervenções e de uma farmacopeia primitiva, largamente baseada em ervas, pode ter garantido benefícios à saúde dos doentes que foram então atribuídos a intervenções divinas.

Os motivos que levaram a associação de um santo à determinada condição são os mais variados e nem sempre seguem uma lógica. Algumas vezes existe uma ligação com o tipo de martírio a que o santo foi submetido antes de sua morte. Assim, por exemplo, Santa Águeda de Catânia, ou de Palermo, foi uma cristã assassinada no século III em Catânia, durante a perseguição empreendida pelo imperador romano Décio. Ao longo do seu martírio suas mamas foram arrancadas. Por isso ela é considerada a padroeira das mulheres com doenças mamárias e das nutrizes. No mesmo século Santa Apolônia de Alexandria foi igualmente assassinada devido a perseguição aos cristãos. Durante seu martírio deve todos os dentes arrancados. Tal santa não apenas é considerada a protetora dos acometidos por doenças dentárias como também a padroeira dos dentistas. Esta última santa normalmente é representada em pinturas segurando uma pinça que prende um dente.

Algumas vezes o santo ficou ligado à doença devido a algum ato praticado. São Brás era um bispo armênio que foi martirizado no século IV. A ele é atribuída a retirada com a mão de espinho da garganta de uma criança. Por isso a crença dele poder curar moléstias da garganta em geral e, em particular, obstruções por aspiração de corpos estranhos.

Em outras ocasiões o santo era associado a uma doença pelo fato de ter padecido da mesma moléstia. São Roque era venerado em muitas regiões da Europa durante a idade média para proteção contra a peste negra. Ele viveu no século XIV na França e dedicou-se a atender vítimas da peste negra de 1348. Atribui-se a ele inúmeras curas empregando somente um bisturi e o sinal da cruz. Ao longo de seu trabalho teria ele mesmo sido acometido pela doença e se retirado para dentro da mata esperando a morte. Nesse período teria morrido de fome se não fosse pelo fato de um cachorro levar-lhe pão todos os dias. Um santo teria aparecido em um sonho, tocado sua perna e lhe curado então da peste. São Roque ainda é considerado patrono dos inválidos e cirurgiões. Um outro santo ligado a proteção contra a peste foi São Cipriano de Cartago

Durante a idade média houve outra doença tão importante quanto a peste negra, que ficou conhecida como Fogo de Santo Antonio. Ela caracterizava-se por dores em queimação pelo corpo e gangrena das extremidades. Embora muito tenha se discutido sobre o que essa doença representava, a maioria dos autores modernos acredita que ela seja devido a ingestão de cereal contaminado pelo fungo Claviceps purpurea (esporão do centeio) que produz substâncias químicas relacionadas com o ergot. Portanto, ao que tudo indica, Fogo de Santo Antonio é o que se conhece hoje como ergotismo. Ao que parece a associação da doença com Santo Antonio deveu-se a Gaston de Vienne que, no século XI, atribuiu a cura do seu filho acometido pela doença ás fervorosas preces feitas ao santo.

A coreia reumática, ou coreia de Sydehan, caracteriza-se por rápidos movimentos involuntários, geralmente de pequena amplitude. A moléstia também é conhecida como Doença de São Vito, ou São Guido, e o motivo para isso, ao que parece, não tem nada de divino. São Vito era originário da Sicilia e foi cristão martirizado no século IV. Uma explicação para a associação deste mártir com a coreia resulta do fato de, na idade média na Alemanha e Latvia, ser comum a realização de festas para o santo, com danças em frente de suas estátuas. Esse tipo de dança acabaria tornando-se popular e emprestando o nome à doença, devido à semelhança dos movimentos. Segundo outros autores, fungos frequentemente contaminavam o centeio empregado na fabricação do pão, levando a contaminação por substâncias alucinógenas. Indivíduos sob ação de tais produtos saiam dançando de forma transloucada nas cidades e já que um desses episódios ocorreu próximo ao dia de São Vito, o santo foi implicado como responsável por essa “praga da dança”. A denominação inicial “dança de São Vito” teria sido posterior e inadvertidamente aplicada para a doença descrita Pelo médico inglês Thomas Sydehan no século XVII. Vale notar que São Vito também é conhecido como protetor dos convulsivos e o padroeiro dos dançarinos

Uma lista completa com nome de santos e patronos de diversas doenças pode ser acessada neste link.

 

Referência:

# Fletcher R. On some diseases bearing names of saints. Bristol Med-Chir J, 30, Dec 1912. Acessado em link

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