Barulho e Hipertensão Arterial, ou Silence is Golden!

A exposição a altos níveis de ruídos, no ambiente doméstico e principalmente no trabalho, sabidamente se associa a perdas auditivas. Muito relevante, em tempos recentes, está tornando-se cada vez mais claro que o barulho também pode causar problemas orgânicos, além daqueles de natureza auditiva.

Acumulam-se evidências na literatura que a exposição a níveis elevados de ruídos pode se associar a hipertensão arterial sistêmica, doenças cardiovasculares, acidentes vasculares cerebrais, distúrbios do sono, do comportamento e mesmo alterações digestivas.

A associação entre exposição a barulho e hipertensão arterial tem sido extensivamente estudada, às vezes com resultados contraditórios. Contudo, estudo recentemente publicado, de autoria de Chen S et al, acrescenta evidências adicionais relevante sobre a referida associação.

Foram estudados, de maneira transversal, 1390 trabalhadores expostos a níveis de ruídos superiores a 80 DB em seu local de trabalho e 1399 indivíduos controle, da mesma comunidade e sem exposição, pareados por sexo e idade. Os trabalhadores atuavam todos na cidade de Hangzhou e desenvolviam suas tarefas em indústrias de produtos mecânicos, utilidades domésticas, construção com aço e fábricas de cigarros. Como 92% dos trabalhadores avaliados eram homens, a análise estatística ficou restrita apenas a indivíduos desse gênero.

Os voluntários foram avaliados após pelo menos 12 horas sem exposição aos ruídos das fábricas. Inicialmente eles respondiam a um questionário com informações clínicas e, em seguida, a pressão arterial era aferida em posição sentada, após pelo menos 15 minutos de repouso, empregando-se um esfigmomanômetro de mercúrio. Os valores utilizados para análise foram as médias de três medidas obtidas numa mesma ocasião.

A idade média dos grupos comparados girou em torno de 33 anos, ou seja, eram indivíduos jovens, e 83,8% deles referiam o uso de equipamento de proteção individual contra ruído. As médias da pressão arterial sistólica e diastólica do grupo exposto a ruído foram significativamente mais elevadas do que as do grupo controle (125,1±13,9/77,6±10,7 mmHg X 117,2±15,7/70,0±10,5 mmHg; p< 0,0001). Além disso, a proporção de indivíduos diagnosticados com hipertensão arterial foi significantemente maior no grupo exposto do que no grupo não exposto (17,8% X 9%; p<0,0001). Os resultados foram os mesmos quando os dados foram corrigidos para idade, uso de álcool e tabagismo. As razões de chance para hipertensão arterial no grupo exposto foi de 1,94 (1,47-2,56) em relação ao grupo não exposto. Igualmente importante, o uso de tampões auditivos não parece ter protegido os expostos de desenvolverem a elevação pressórica.

Os mecanismos propostos para explicar a associação entre ruído e hipertensão arterial envolvem aumento da resposta de estresse com liberação adrenérgica repetida e hiperprodução de esteroides pela suprarrenal.

Em função desses resultados, podemos supor que a manutenção de um ambiente tranquilo seja importante para evitar o desenvolvimento de hipertensão arterial, ou mesmo agravar o quadro dos que exibem o problema. Naturalmente que os níveis de ruído necessários para levar à hipertensão arterial devem ser elevados, assim como deve ser importante o tempo de exposição, contudo, na vida cotidiana, não temos condições de andar constantemente com um audiodosímetro debaixo do braço, para selecionar ambientes em que possamos ficar. Portanto, evitar o barulho, além de trazer conforto auditivo, parece ser boa precaução para outras doenças sistêmicas.

Ou, como diz a velha canção: Silence is Golden!

 

Referências

Chen S, Ni Y, Zhang L, et al. Noise exposure in occupational setting associated with elevated blood pressure in China. BMC Public Health. 2017;17: 107.

Münzel T, Gori T, Babisch W, et al. Cardiovascular effects of environmental noise exposure. Eur Heart J. 2014; 35: 829-36.

Münzel T, Sørensen M, Gori T, et al. Environmental stressors and cardio-metabolic disease: part I-epidemiologic evidence supporting a role for noise and air pollution and effects of mitigation strategies. Eur Heart J. 2016 Jul 26. pii: ehw269. [Epub ahead of print]

 

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