Distúrbio Factício ou Síndrome de Münchhausen.

A Síndrome de Münchhausen, mais modernamente denominada apenas de distúrbio factício, é uma moléstia psiquiátrica caracterizada pela produção de falsas manifestações de doenças, geralmente com a finalidade de obter atenção, simpatia ou cuidados médicos. Tais pacientes simulam achados de doenças, geralmente por comportamentos de autoagressão. Assim, por exemplo, já tivemos a oportunidade de acompanhar uma paciente que simulava hemoptises pela retirada de sangue com agulha e seringa das veias do seus próprios braços. Em outra situação uma paciente também simulava sangramentos a partir da via aérea, ao refluir sangue do cateter central em uma gaze.

A síndrome de Münchhausen difere da hipocondria por envolver atos concretos de simulação como, por exemplo, arranhões em si mesmo, ou a colocação de corpos estranhos em feridas operatórias impedindo a sua cicatrização. Ao contrário dos pacientes com hipocondria que acreditam ter a doença, os pacientes com distúrbios factícios sabem que estão sadios. Além disso, eles não procuram levar vantagens econômicas ou sociais com o seu comportamento como, por exemplo, conseguir afastamento do trabalho.

Atribui-se a introdução do termo Síndrome de Münchhausen ao médico americano Richard Asher na década de 1950, que associou um dos seus pacientes ao personagem Barão de Münchhausen.

Karl Friedrich Hieronymus von Münchhausen, o Barão de Munchausen, foi um militar alemão que viveu no século XVIII e serviu no exército russo. Ao que tudo indica, ele ficou conhecido por contar histórias fantásticas e exageradas dos seus feitos militares. Em 1785 o bibliotecário alemão Rudolf Raspe publicou em Londres o livro As Loucas Aventuras do Barão de Münchhausen, com histórias ainda mais estranhas e sensacionalistas do que as contadas pelo próprio Karl Friedrich. Esse livro acabou tornando-se um clássico da literatura infanto-juvenil, tendo sido transformado em filmes nos anos de 1943 e 1988. Atualmente há uma tendência a limitar a denominação Síndrome de Münchhausen apenas para os casos mais graves de distúrbio factício.

Os motivos que levam as pessoas a ter esse tipo de comportamento ainda não são completamente claros. Às vezes ele surge em pacientes com um quadro mórbido real, ao qual acaba se somando um novo comportamento psiquiátrico. Outras vezes ocorre a Síndrome de Münchhausen by proxy, ou seja, “por procuração”. Na última situação o responsável pelo paciente, geralmente uma criança, simula sintomas ou infringe lesões na pessoa em condição de dependência visando simular doenças. Esse tipo de comportamento é considerado uma forma de abuso, promovido quase sempre por mães em seus filhos.

Por incrível que possa parecer, até uma Síndrome de Münchhausen pela internet já foi descrita. Trata-se de pessoas que entram em sites voltados ao apoio e aumento do conhecimento sobre uma determinada doença e lá simulam as queixas e quadro clínico da condição. Na ânsia de obter atenção, exageram seus sintomas e vivências e acabam desorganizando totalmente a dinâmica do grupo de suporte online.

Em estudo recente, Yates & Feldman avaliaram 455 casos de distúrbios factícios descritos na literatura. Foram identificados casos nos mais diversos campos da medicina, em especial cardiologia, dermatologia e endocrinologia. Apesar da diversidade de manifestações encontradas, algumas características foram detectadas que podem ajudar a desconfiar do referido diagnóstico.

A maioria dos casos eram mulheres (66%) e a idade média do grupo foi de 34,2 anos. Muitos dos pacientes acometidos (27%) eram profissionais envolvidos direta ou indiretamente com a campo da saúde como, por exemplo, biomédicos e técnicos de laboratório. Em 170 casos onde foram feitas avaliações psiquiatricas adequadas, distúrbios associados estiveram presentes em 82,9% dos casos, entre eles, depressão (41,8%), distúrbios de personalidade (16,5%) e uso de drogas (15,3%).

Outros elementos que podem ajudar a fazer a suspeita da Síndrome são: (i) falta de resposta ao tratamento correto instituído; (ii) paciente que deseja, ou aparentemente gosta, de se submeter a diversos procedimentos e exames, mesmo os mais invasivos; (iii) história de passagem por diversos médicos e internações hospitalares sem elucidação diagnóstica ou resposta a terapias instituídas; (iv) recusa em permitir que os médicos conversem com familiares ou amigos; (v) pacientes que não mostram surpresa ou ansiedade diante das graves situações falsamente criadas, enquanto os profissionais de saúde mostram-se muito preocupados e agitados.

O diagnóstico da Síndrome de Münchhausen pode ser um grande desafio. Raramente o paciente admite o comportamento, mesmo em consulta com profissional treinado no campo da saúde mental. A observação continua do comportamento do paciente é muito importante. Em pacientes internados esse tipo de monitoramento pode ser feito lançando-se mão de câmeras de filmagem escondidas junto ao leito.

O tratamento da Síndrome de Münchhausen passa pela abordagem do eventual distúrbio psiquiátrico de base como, por exemplo, ansiedade e depressão. Diante de casos com distúrbios de personalidade permanentes, o prognóstico é pior. Em casos “por procuração” muito graves, é premente afastar a criança do seu cuidador doente, devido ao risco de morte. Para tanto, costuma ser necessário a entrada com processos legais na justiça.

Clique no título do filme ao lado para ver o trailer de As Aventuras do Barão de Münchhausen, filmado em 1988.

 

Referências

# Asher R. Munchausen’s syndrome. Lancet. 1951; 1(6650):339-41.

# Pulman A, Taylor J. Munchausen by internet: current research and future directions. J Med Internet Res. 2012; 14: e115.

# Squires JE, Squires RH. A review of Munchausen syndrome by proxy. Pediatr Ann. 2013; 42: 67-71.

# Yates GP, Feldman MD. Factitious disorder: a systematic review of 455 cases in the professional literature. Gen Hosp Psychiatry. 2016; 41:20-8.

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