A Síndrome da Classe Econômica.

O termo Síndrome da Classe Econômica refere-se a ocorrência de quadros de trombose venosa profunda e embolia pulmonar em pacientes que fazem viagens aéreas prolongadas. Nessa situação, admite-se que a imobilização associada à viagem, bem como a permanência das pernas dobradas contra o assento por longo tempo, facilitem o estabelecimento de trombose nas veias poplíteas e, quando os trombos se mobilizam, o surgimento da embolia pulmonar. Outros fatores que parecem também colaborar para o estado pró-trombótico são a queda da saturação arterial de oxigênio pelas altitudes elevadas e o surgimento de desidratação por aumento das perdas insensíveis devido ao ambiente seco.

Contudo, o risco aumentado para fenômenos trombóticos após viagens prolongadas não está limitado às viagens aéreas, podendo surgir também após viagens em trens e automóveis. O risco para o seu surgimento correlaciona-se tanto com a distância percorrida como o tempo da jornada. Admite-se que o risco cresça a partir de viagens de 4 horas e seja máximo a partir de viagens com durações maiores do que 10 horas. Nesse contexto, mesmo o uso de assentos em classe executiva ou primeira classe não elimina completamente o risco para o surgimento dos quadros de tromboembolismo venoso.

Os quadros de tromboembolismo pulmonar relacionados com viagens acometem indivíduos de qualquer idade, incluindo jovens, e podem surgir até 30 dias após o término da jornada. Curiosamente, o fenômeno parece ser mais comumente identificado após a viagem de volta ao ponto da partida.

Um estudo feito em países nórdicos sugere que esse tipo de evento possa ser responsável por até 3% do total de quadros tromboembólicos. Contudo, a proporção de casos assintomáticos pode ser muito maior.

Portanto, a possibilidade de tromboembolismo pulmonar sempre deve ser pensada em indivíduos com manifestações cardiovasculares e respiratórias e que tenham feito viagens com durações maiores do que quatro horas, entre elas, dispneia, tonturas, dor torácica, pneumonias, etc.

Além disso, em indivíduos com forame oval patente, já foram descritos casos de acidente vascular cerebral isquêmico e até trombose mesentérica, atribuídos a disseminação paradoxal de trombos de membros inferiores formados durante viagens.

Questão muito importante diz respeito à profilaxia de tal complicação. Em viagens aéreas prolongadas recomenda-se esticar as pernas e dar alguns passos a cada duas horas de voo, mesmo que isso possa irritar os comissários de bordo, como também a ingestão abundante de bebidas não alcóolicas. Nas viagens automotivas, interrupções a cada duas horas são igualmente recomendadas. Em casos selecionados de pacientes com antecedentes de tromboembolismo pulmonar, ou com diagnósticos bem estabelecidos de anormalidades pro-trombóticas, está indicado uso profilático de anticoagulantes sistêmicos, tais como heparina de baixo peso molecular subcutânea. Meias elásticas podem reduzir o surgimento de edema de membros inferiores e melhorar o conforto nas viagens, mas não existem estudos confirmando algum efeito profilático na redução de riscos de trombonse nessa situação. Vale salientar ainda que, igualmente, não existe nenhuma evidência cientifica recomendando a ingestão de aspirina antes de viagens visando redução dos riscos de trombose.

 

Referências  

# Dalen JE. Economy class syndrome: too much flying or too much sitting? Arch Intern Med. 2003; 163: 2674-6.

# Feltracco P, et al. Economy class syndrome: still a recurrent complication of long journeys. Eur J Emerg Med.14: 100-3.

# Isayev Y, et al. “Economy class” stroke syndrome? Neurology. 2002; 58: 960-1.

# Yaşar F, et al. Omental infarction due to a patent foramen ovale after a long flight: a variant of economy class syndrome. Anadolu Kardiyol Derg. 2014 ;14: 662.

 

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