Hemoptise e Atividade Sexual.

Hemoptise é uma manifestação clínica, via de regra, desencadeadora de grande ansiedade e temores. Imagine então os sentimentos de um paciente quando ela for desencadeada pela prática sexual!

Pois é verdade, embora muito raros, existem quadros de hemoptise que surgem ao final ou imediatamente após a realização do ato sexual. Essa condição é habitualmente denominada hemoptise pós-coital e há em torno de 13 casos clínicos relatados na literatura. Ela já foi descrita tanto em homens como em mulheres, com idades variando entre 35 e 81 anos. Na maioria das vezes ela é devida a problemas cardiovasculares, ainda que em alguns casos também pareça ser desencadeada por lesões primariamente pulmonares.

Admite-se que o ato sexual seja um tipo de exercício com características diferentes de outras atividades do cotidiano. Ele é um exercício isométrico, associado com grau elevado de ativação simpática devido à excitação sexual. Durante a prática sexual ocorrem elevações da frequência cardíaca e das pressões tanto da circulação pulmonar como da circulação sistêmica. O momento do orgasmo se associa com um pico transitório, mas expressivo, de elevação da pressão arterial sistêmica. Nesse contexto, na presença de anormalidades cardíacas, haveria grandes elevações da pressão de encravamento capilar, com ruptura dos capilares pulmonares e extravasamento de sangue para alvéolos.

Entre as condições cardíacas associadas com hemoptise pós-coital estão doenças coronarianas, regurgitação mitral, estenose mitral e hipertensão arterial sistêmica não controlada. Admite-se que o pico de hipertensão arterial, associado ao clímax sexual, leve a aumento acentuado do trabalho do ventrículo esquerdo o qual, quando insuficiente ou disfuncional, não conseguiria impedir o surgimento de congestão pulmonar passiva crônica e rápidas elevações da pressão capilar pulmonar. Elevações da pressão de capilar pulmonar muito acentuadas, ainda que transitórias, promoveriam a ruptura desses vasos e o sangramento para as vias aéreas.

Vale notar que já foi descrito um caso de hemoptise pós-coital em uma paciente com linfangioleiomiomatose e em outra com cavidade pulmonar secundária a arterite de Takaiasu. No nosso meio, o saudoso Dr. Fernando Fiuza fez menção a um caso em uma carta enviada ao Jornal Brasileiro de Pneumologia no ano de 1999, no qual não foi possível a identificação da causa.

Eu mesmo me lembro de ter tido uma paciente com bronquiectasias associadas a micobacteriose atípica, que relatou hemoptise pós-coital em raras ocasiões. Contudo, o seu seguimento foi perdido.

Apesar da dramaticidade envolta com a situação, hemoptises associadas ao ato sexual tendem a ser benignas e de curta duração, desaparecendo com a otimização do tratamento da condição clínica de base, em especial das anormalidades cardiovasculares.

É bem provável que a prevalência desse sintoma seja mais frequente do que o imaginado, uma vez que os pacientes podem se sentir inibidos em relata-lo aos seus médicos. Portanto, quando fazendo o interrogatório sobre os diferentes aparelhos de um paciente com cardiopatia ou pneumopatia crônica, uma pergunta nova a ser feita agora é:

Já escarrou com sangue durante o ato sexual?

 

Referências

# Fiuza FAM. A tosse, a hemoptise e o orgasmo. J Pneumol. 1999; 25: 187-8.

# Fuks L, et al. Post coital hemoptysis : our experience and review of the literature. Respir Med. 2009: 103: 1828-31.

# Jhawar M, et al. Post coital hemoptysis. Int J Cardiol. 2009; 13: e63-e64.

# Kesieme EB, et al. Post coital haemoptysis: a case report and  a review of the literature. Case Report Med. 2013; 189326.

 

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