Potencial Iatrogênico das Palavras do Médico.

Em texto recentemente publicado na revista JAMA, o psiquiatra Arthur Barsky chama a atenção para o potencial iatrogênico que palavras emitidas pelos médicos podem adquirir.

Segundo o autor, palavras isoladamente não são suficientes para desencadear sintomas, mas podem certamente modula-los.  Desse modo, o conteúdo cognitivo transmitido pelas palavras emitidas pelos médicos pode influenciar fortemente a percepção dos sintomas.

O simples fato de ouvir do médico que um sintoma pode ser grave pode fazer com que o paciente comece a prestar mais atenção na sua presença e com isso amplificar a sua percepção. Tomar conhecimento de eventuais efeitos colaterais de drogas ou intervenções pode fazer com que o paciente comece a valorizar pequenas intercorrências as quais, de outro modo, passariam desapercebidas. O surgimento de ansiedade relacionada à situação também serve como elemento amplificador adicional do sintoma.

Já foi demonstrado que o simples conhecimento de possíveis efeitos colaterais ambíguos de drogas como, por exemplo, fadiga, dificuldade de concentração, naúseas e tonturas, aumenta a frequência de sua informação.  Esse tipo de fenômeno é muito comum entre voluntários de ensaios clínicos que caem no grupo placebo. Por isso, é conhecido como efeito nocebo, ou seja, o inverso do efeito placebo, o qual seria a melhora dos sintomas pelo uso de uma substância não eficaz.

Em especial o sintoma dor é muito sensível às crenças e expectativas do paciente. Num estudo muito interessante, publicado por Varelmann et al, o tipo de comentário efetuado imediatamente antes da aplicação de um botão anestésico na pele de mulheres grávidas, para a realização de anestesia peridural ou raquidiana, influenciou na intensidade da dor referida. Quando o anestesista dizia, antes da realização da anestesia tópica, “Você vai sentir uma grande ferroada e queimação nas suas costas agora, como uma picada de abelha; esta é a pior parte do procedimento”, a intensidade da dor referida foi significante maior do que quando a paciente ouvia “Nós vamos injetar o anestésico local que vai anestesiar a área onde você vai receber a anestesia epidural/espinal e você irá ficar confortável durante o procedimento“.

Barsky propõe uma série de medidas para evitar a amplificação de sintomas por palavras empregadas pelo médico, que podem ser empregadas em diferentes situações:

  • Os médicos devem avaliar bem o modo como dão informações e escolher adequadamente as palavras que usam.
  • Explorar as crenças e preocupações dos doentes em relação aos sintomas que lhe incomodam, para melhor aborda-los.
  • Garantir, nas situações apropriadas, que o sintoma embora perturbador, não reflete doença grave.
  • Quando discutindo a possibilidade de efeitos colaterais, enfatizar a proporção de pacientes que não desenvolvem o problema. Nessas situações também seria mais apropriado concentrar-se apenas na discussão dos efeitos colaterais realmente importantes.
  • No momento da realização de procedimentos empregar mensagens neutras, com palavras calmas e tranquilizadoras.

E notem que tudo isso diz respeito apenas ao tipo de mensagem cognitiva transmitida.

Ainda não falamos da maneira como as palavras são ditas, do modo de olhar o paciente, de toda linguagem corporal e uma infinidade de elementos não cognitivos que certamente estão acontecendo simultaneamente!

 

Referências

# Barsky AJ. The iatrogenic potential of the physician’s words. JAMA. 2017;318:2425-6.

# Barsky AJ, Saintfort R, Rogers MP, Borus JF. Nonspecific medication side effects and the nocebo phenomenon. JAMA. 2002 ;287:622-7.

# Varelmann D, Pancaro C, Cappiello EC, Camann WR. Nocebo-induced hyperalgesia during local anesthetic injection. Anesth Analg. 2010;110(3):868-70.

 

 

 

 

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