Efeitos da Música no Pós-operatório de Idosos.

A influência da música em diferentes situações médicas tem sido motivo de diversas publicações. De um modo geral, já foram apontados benefícios dessa forma de terapia em diversas situações, ainda que resultados robustos e definitivos na maioria das vezes não sejam descritos.

Um estudo recente realizou uma revisão sistemática dos efeitos da música em desfechos relacionados ao período pós-operatório de pacientes com idade superior a 60 anos. A importância de investigar o papel da música nesse grupo de indivíduos advém do fato deles exibirem maior risco para efeitos adversos do uso de drogas, particularmente quando em associações.

À partir de 1827 artigos levantados, os autores acabaram selecionando apenas 17, os quais preenchiam os critérios de inclusão: (i) pacientes operados em hospitais apenas, (ii) idade média maior do que 60 anos, (iii) música como intervenção única, e (iv) desfechos avaliados na internação.

Elemento que dificulta a análise e intervenção dos resultados é a acentuada heterogeneidade dos desenhos, medidas e intervenções utilizadas. Houve acentuada variação entre os métodos de aplicação da música, incluindo um estudo em que violão era tocado ao vivo. Em algumas situações o paciente selecionava o tipo de música que gostaria de ouvir, em outras ele era pré-estabelecido pelos pesquisadores. Em um estudo o uso da música iniciou-se já na sala cirúrgica, enquanto nos demais ele foi limitado ao período pós-operatório. Houve ainda grande diversidade na duração da intervenção musical. Para complicar ainda mais, os tipos de cirurgias investigadas também variaram muito, ortopédicas, abdominais, cardíacas, etc.

Diante de heterogeneidade tão grande, não foi possível aos autores realizarem uma meta-análise, de tal modo que os resultados obtidos acabaram sendo listados sob forma mais descritiva. Desse modo, ainda que as conclusões não possam ser consideradas como definitivas, alguns achados acabaram por se destacar:

# De 11 estudos que avaliaram o efeito da música sobre os escores de dor, todos mostraram algum grau de melhora do sintoma. Apesar disso, três de cinco estudos não mostraram redução do consumo de opióides com as intervenções musicais.

# Oito estudos avaliaram ansiedade por diferentes métodos e a maioria deles mostraram reduções desse estado com a introdução da musicoterapia.

# Um número expressivo de estudos mostrou aumento do relaxamento e redução do estresse com o uso da música. Em um estudo os níveis circulantes de ocitocina caíram, mas nenhum estudo mostrou reduções significativas das concentrações de cortisol basal.

# Quedas da pressão arterial sistêmica e mesmo da frequência respiratória foram encontradas em alguns estudos, mas não em todos.

# Houve relatos da música reduzir a incidência de delírium e confusão mental, bem como melhorar a qualidade do sono. De modo geral, os pacientes manifestaram satisfação com a musicoterapia, percebendo a intervenção como positiva, influenciando até positivamente no humor.

# O uso da música não interferiu em desfechos duros como, por exemplo, incidência de complicações ou duração da internação.

Os autores reconhecem um bom número de limitações do seu estudo, mas argumentam que os resultados disponíveis indicam que a música possa ser, de fato, uma intervenção adjuvante positiva no pós-operatório de pacientes idosos. Muito relevante, não foram descritos efeitos adversos com o seu uso.

Como só ia acontecer, estudos adicionais, bem desenhados e conduzidos, ainda são necessários para a obtenção de respostas definitivas sobre o tema.

E se alguém precisar de um ponto de partida para tais estudos, eu sugiro que ouçam as obras deste link.

 

 

Referência

  • van der Wal-Huisman H, et al. The effect of music on postoperative recovery in older patients: A systematic review. J Geriatr Oncol. 2018 Apr 17. pii: S1879-4068(18)30112-7. doi: 10.1016/j.jgo.2018.03.010. [Epub ahead of print]

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