Medicina: Ciência e Arte

Costuma-se dizer que a medicina é arte e ciência combinadas. Arte e ciência podem coexistir dentro de um mesmo conceito? Afinal, onde residem a arte e a ciência na medicina?
Medicina designa a “prática relacionada com a manutenção da saúde e a prevenção, alívio ou cura das doenças”.1 Além disso, o termo também denomina o conjunto de conhecimentos e procedimentos envolvidos com essa prática. A palavra medicina deriva do latim ars medicina ou ars medica, que é traduzida como a arte ou habilidade de curar.2 A palavra medicina deve ter derivado de mederi, que significa medicar, curar.
Já ars originalmente significava a habilidade de fazer coisas com precisão. Na Antiguidade a associação do termo ars com experiências estéticas prazerosas, ao que tudo indica, não existia.3 O significado contemporâneo para a palavra arte, se estabeleceu apenas ao longo dos séculos seguintes. Como ars traduz a habilidade necessária para concretização de uma tarefa, parece transmitir ainda a mensagem de que o trabalho a ser realizado é desafio expressivo, cuja solução não está à altura de qualquer um.
Vale lembrar que em latim a palavra medicina era igualmente utilizada para identificar o instrumento utilizado na cura, ou seja, os remédios. Curiosamente, o termo medicus não designava apenas a pessoa que praticava a medicina, mas também quem fazia sortilégios (feiticeiros, mágicos, etc.).
Existem várias definições para o termo ciência. Segundo a American Physics Society, é “a ação sistemática de coleta do conhecimento sobre o universo e a organização e agrupamento desse conhecimento em leis e teorias testáveis”.4 Já para o Science Council da Inglaterra, “é a busca e a aplicação do conhecimento e compreensão do mundo natural e social seguindo uma metodologia sistemática baseada em evidências”.5 Ainda que a última definição incorpore espaço para reconhecimento da ciência aplicada, certamente que nenhuma das duas descrições se aplica plenamente ao conceito do que é medicina.
Pode-se admitir que as origens da medicina remontam ao primeiro momento em que um ser humano procurou aliviar o sofrimento de algum semelhante. Esse instante simbólico, perdido na história, certamente envolveu hominídeos com características bem distintas das atuais. A prática médica em seus primórdios esteve associada à magia, crenças religiosas e espiritualidade. A medida que as civilizações evoluíram em complexidade, as práticas curativas foram se transformando na mesma proporção. A curiosidade e poder de observação de fenômenos pelos pioneiros da medicina, assim como conceitos filosóficos dominantes, acabaram por moldar os diferentes tratamentos então utilizados.
Vale lembrar que, apesar do conhecimento médico rudimentar, sempre houve tratamentos para as doenças desde a Antiguidade até os dias atuais. A real efetividade dessas terapias é outra questão… A teoria dos quatro humores em voga até meados da Idade Média pode nos parecer sem sentido atualmente, mas quantas condutas médicas hoje praticadas serão consideradas estúpidas daqui a dois séculos?
O conhecimento humano progrediu em ritmo variado ao longo dos séculos, mas um período excepcionalmente importante foi a revolução científica ocorrida na Europa entre os séculos XVI e XVIII. Vários nomes se destacam nessa época, em especial Galileu, Descartes, e Newton. Além de importantes descobertas é nesse momento que se inicia o desenvolvimento do método científico, embasamento do acelerado progresso tecnológico observado nos séculos seguintes. É claro, então, que a medicina já era prática bem estabelecida muito antes da criação do método científico, da descoberta da circulação sanguínea por Harvey (1628), ou do início do estudo microscópico de tecidos por Malpighi (1666). Em outras palavras, como a medicina precede em muito a ciência moderna, acaba por englobar aspectos tão ou mais abrangentes do que esta.

A ciência da medicina
A presença da ciência e da tecnologia no cotidiano da medicina atual é facilmente identificada. Elas estão presentes nos biomarcadores de atividade e prognóstico das moléstias, nos métodos de imagem, nas cirurgias robóticas e minimamente invasivas, nas novas drogas lançadas constantemente pelas indústrias farmacêuticas, na prática médica baseada em evidências, e muito mais. Na verdade, é esse o tipo de conteúdo quase que exclusivamente administrado pelas escolas médicas nos dias de hoje.
Esses avanços foram fundamentais para o aumento da expectativa de vida dos seres humanos, observado em especial a partir da segunda metade do século XX. Contudo, a crença na ciência e tecnologia médicas atuais é tamanha que, às vezes, gera distorções. Grande número de pacientes mostra frustração quando em consulta não recebem pedidos de exames subsidiários. Resultados preliminares de pesquisas cientificas são divulgados pela mídia como panaceias e soluções definitivas para inúmeros males. Diante desse estado de coisas, a morte acaba deixando de ser encarada como fenômeno natural e, quando em situações inevitáveis acontece, pode desencadear em parentes e amigos reações emocionais desproporcionais, assim como acusações infundadas contra as equipes de saúde.
Independente das mistificações proporcionadas por visões estreitas da medicina, o conhecimento científico e o desenvolvimento tecnológico constituem o alicerce a partir do qual a arte médica pode ser praticada com segurança e eficiência. É, portanto, obrigação de todo médico manter-se permanentemente atualizado quanto aos avanços dos conhecimentos que possam interferir diretamente na sua prática cotidiana.
Mesmo que a prática médica envolva predominantemente ciência aplicada, a observação atenta de acontecimentos e fenômenos pode gerar insights valorosos que geram conhecimentos relevantes e soluções inovadoras. Nesse sentido, médicos interessados e curiosos encontram em seu cotidiano profissional oportunidades para atuarem eles mesmos como verdadeiros cientistas.

A arte da medicina
Podemos entender a palavra “arte” a partir de duas óticas distintas, não necessariamente conflitantes: (i) a habilidade de produzir um produto ou desempenhar uma função; nesse cenário o termo compartilha raízes com palavras como “artesanato” e “artesão”, ou ainda com expressões do tipo “artes e ofícios”; (ii) a produção de obras ou prática de habilidades pessoais, avaliados dentro de contextos estéticos e de repercussões espirituais; transitam dentro desse universo a palavra “artista” e a expressão “artes plásticas”.
O que diferencia o artesão do artista? O primeiro faria produtos consagrados e amplamente disponíveis a partir de métodos e processos bem estabelecidos. O segundo seria criativo e original, gerando produtos e resultados inovadores a partir de metodologias ou visões próprias. Contudo, o que realmente rotula um e outro é o julgamento das suas obras pelas outras pessoas, as quais exibem graus diversos de sensibilidade e compreensão. Um oleiro que faça um vaso de barro especialmente bonito, pode ser considerado por muitos um “artista”. Um pianista que toque burocraticamente uma peça, será visto apenas como um “músico”.
E os médicos, atuam como artesãos ou como artistas?
A medicina é uma profissão voltada a manutenção da saúde, prevenção, alívio e cura das doenças. Portanto, a arte da medicina reside em oferecer o melhor cuidado possível aos seres humanos que dela dependem. Ainda que os médicos possam atuar em diferentes áreas, o cenário profissional mais típico envolve interações com seres humanos fragilizados. Nessas últimas situações é mais fácil identificar os componentes da arte médica, pois oferecer o melhor cuidado possível aos pacientes requer tanto expertise técnica, como também a mobilização de qualidades humanas. Desse modo, a arte de um médico traduz-se por:
• Desenvolver e aprimorar as habilidades diagnósticas e terapêuticas através da constante prática assistencial.
• Reunir a sabedoria e bom-senso necessários para aplicar, do melhor modo, as evidências científicas e a tecnologia disponíveis, frente aos estados clínicos particulares de cada paciente.
• Diante de circunstâncias imprevistas ou inusitadas, lançar mão do conhecimento prévio, experiência pessoal, criatividade e de intuição, para propor soluções inovadoras.
• Incorporar empatia, compreensão, paciência e calor humano nos contatos com doentes e familiares.
• Pautar o comportamento profissional em princípios éticos rígidos, guiando suas decisõea pelo melhor dos interesses dos pacientes atendidos.

A arte médica diz então respeito à maneira como se utiliza e se aplica a ciência na prática profissional diária. Além disso, também deve ser considerado parte da arte médica o conjunto de tradições e legados históricos que costuma estar incorporado a persona do médico. Por isso, elementos inicialmente considerados como ciência, quando associados por longo tempo à prática profissional, acabam por tornar-se parte da arte médica. Um exemplo disso é a ausculta mediada por estetoscópio.
Não seria inadequado supor que os componentes da persona do médico também já façam parte do inconsciente coletivo da humanidade. A falta de expressão desses elementos, por alguns profissionais, pode ser a origem de muitos problemas de relacionamento médico-paciente observados nos dias atuais.
Em função do exposto, seria impossível classificar os médicos como artesãos ou artistas. A medicina é uma profissão de aspectos únicos, e aqueles que a praticam com dignidade desfrutam de um retorno pessoal imensurável. Medicina de qualidade é muito mais do que decisões técnicas envolvendo exames de laboratório, medicamentos ou operações. A sua prática requer identificação com o sofrimento alheio, comprometimento moral, sabedoria e insights.6 Nas ocasiões em que conjunto tão complexo de fatores é integrado com perfeição, o profissional médico equiparar-se-á a um virtuose tocando seu instrumento. Em tais momentos o termo arte deixa de indicar apenas habilidade, mas ganha também uma conotação de genialidade, beleza estética e transcendência espiritual!

Referências
1 http://www.britannica.com/topic-browse/Health-and-Medicine/Medicine
2 Skinner HA. The origin of medical terms. Williams & Wilkins Co, Baltimore, 1961.
3 Dissanayake E. What is art for? University of Washington Press, Seattle, 1990.
4 http://www.aps.org/policy/statements/99_6.cfm
5 http://www.sciencecouncil.org/definition
Peter Thomas, Sam Guglani, Friday 6 June 2014; 07.00 BST, theguardian.com